segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Vivências 11...


"Fiel é algo que não consigo ser Dra."
O Tiago di-lo de forma despreocupada como se fosse o mais normal de se ser!
Mais à vontade fica ainda quando admite que não o faz com qualquer tipo de protecção: "Sabe que conheço as miúdas desde que éramos gaiatos por isso, não percebo...!"
Não dissertamos acerca do que é ser fiel mas sim acerca da sua saúde, dos cuidados que deverá ter com ela... O Tiago contudo, surpreendentemente, pergunta: "E para si o que é ser fiel?"
Ignoro a provocação uma e outra e ainda outra vez, na quarta investida "cedo e respondo o "banal cool": "É sermos fieis a nós próprios!"
Fica em silêncio mais uns minutos e começa-se a antever alguma ansiedade estamos no Curry Cabral nos infecto contagiosos e estamos à espera dos resultados das análises...
Volta a dizer: "Mas e você é fiel a si como?"
Volto a falar da importância da sua saúde de sua historia de vida e fujo um pouco à pergunta que acho pertinente mas, demasiado, intrusiva...
Entrou nesse momento uma rapariga, muito magra, já com marcas de desgaste da doença e com uma filha que não devia ter mais de 2 anos ao colo... Não sabíamos quem suportava quem... A criança linda de feições de cuidadas ria para mãe e dizia-lhe: "Tás triste mãe!" a mãe disfarçou uma lágrima e depois respondeu com um leve acenar de cabeça dizendo: "Não amor, é só porque não gosto de hospitais!" a criança creio, não se deixou enganar, confortou a mãe disse-lhe "Eu sei mãe também não gosto nada de vir às picas!"...
O Tiago olhou-me um pouco de lado e comentou quase em surdina: "A mãe nunca vai ver aquela miúda crescer pois não?", de forma quase que automática e para não deixar que outros sentimentos tomassem conta de mim disse-lhe rapidamente: "Não!"
"Sabe - continuou ele - se eu tiver algum problema é porque fui parvo durante muito tempo mas olhe que esta rapariga pode ter tido mesmo só azar... é triste!"
Não lhe disse nada, fizemos de novo um grande silêncio...
Passado pouco tempo perguntou mais uma vez: "O que é sermos fieis a nós?"
Estava esgotada nesse dia, tinha tido um dia de trabalho intenso no dia anterior, no próprio as coisas não tinham corrido melhor... estar no Curry Cabral aquela hora possivelmente, era a ultima coisa que me apetecia...
Acabei julgo, por ceder: "Sermos fieis a nós próprios é complicado e nem sempre significa o mesmo para cada pessoa... não sei o que lhe diga...!"
"Sim mas para si é o quê?"
"É o comprometermo-nos de tal forma com o nosso intimo com a nossa ética qu que depois não conseguimos pedir menos do que isso ao outro... se ele não cumpre... temos a sensação de traição, de infidelidade, de engano, de falsidade...! Ninguém dá sem no fundo, querer receber algo em troca, nem que seja apenas, amor..."
"Ah... compreendo... pois então tinha razão... Não consigo ser fiel... nem a mim mesmo!"
"Sim Tiago, mas neste caso garanto-lhe, é você quem perde!"
O resultado das análises por fim, chegaram, pediu-me para ser eu abrir... Não tinha HIV mas 2 tipos preocupantes de hepatite... Chorou pelas duas razões e conclui-o: " Tenho de descobrir a minha fidelidade..."
"Penso que seria melhor que assim fosse Tiago... penso que sim..."

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

propriedade

Não me enquadro, nunca me enquadrei. Nem na relação legítima, entre direitos e deveres. Mesmo gostando de algum tipo de dependência, a independência é-me necessária e querida; mesmo sentindo necessidade de ser social, o individual ocupa um espaço importante em mim.

Não queiram que eu seja, porque eu sou sem me dizerem; não obriguem a que eu esteja, porque eu estou sem me obrigarem; não me peçam que eu proteja, que eu protejo. E tenho mais para ser, para estar, para proteger.

Eu não sou de ninguém.
Serei: se EU quiser.


do Lat. proprietate
s. f.,
aquilo que é pertença legítima de alguém ou sobre que alguém tem direito pleno;
(...)

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Imaginário IX

Durante muitos anos passei por aquele sítio. Já tinha ouvido que teria sido uma escola... uma prisão e até um talho.

Um dia entrei. Hoje em dia é um "comes e bebes". Bolos muito bons, vista ainda melhor.

Subi as escadas. Sentei-me à janela.

Demorei o olhar sobre o forte, coberto de heras que escondem pedras sólidas e centenárias, imaginando quantos lá viveram e o que lá fizeram. Quantos barcos viram chegar, quantos abraços deram, quantas lágrimas choraram.

Fixei o olhar no rio, olhei a outra margem, o areal, as gaivotas, os barcos.

Lá em baixo ouvem-se crianças a correr e vive-se o dia-a-dia da vila.

Sentada à janela imaginei-o na escola. Pequeno, franzino, imaginei-o traquina... não sei porque o imaginei traquina. Ele, que era tão calmo e compreensivo. Mas imaginei-o traquina, distraído, bom aluno e cumpridor. Apenas reguila. Imaginei-o a falar com o colega da carteira mais próxima, imaginei uma professora de carrapito branco, óculos na ponta do nariz, o mapa de Portugal pendurado ao lado do quadro de ardósia e os meninos sentados a aprender as lições.

Imaginei-o a fazer contas de somar e dividir enquanto pensava que não estava com o pai na pesca e imaginei-o chegar a casa, dar um beijo à mãe enquanto ela lhe perguntava se tinha aprendido muitas coisas. Imaginei-o com os irmãos a estudar as lições, à pressa, antes de ir fazer travessuras com os seus amigos.

Imaginei-o a sonhar com o futuro. O que seria quando fosse grande. Que gostava da pesca mas não queria ser pescador. Que queria ser mais, um sábio, estudar e aprender muitas coisas para ensinar aos filhos e aos netos. Imaginei-o a pensar que ia casar com uma moça airosa, de cabelos longos e carinhosa, que à noite, ao chegar a casa o iria abraçar e teria sempre uma goludice para ele para sobremesa.

Imaginei que falava com ele e lhe perguntava se alguma vez, sentado naquela sala, imaginou que um dia ia ser avô.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Vivências 10...


"Sinto-me muitas vezes entre a margem da loucura e da sanidade. Creio que passar tanto tempo no meio da ponte só me ajuda a ver os outros passarem e a realizar que eu continuo na mesma!"
A Maria disse isto com o à vontade de quem está nesse ponte faz, de facto, muito tempo... mas acima de tudo disse-o já sem expressão de angústia na cara sem preocupação, sem vontade de nada...
Na realidade a Maria há muito que achava que a vida não era nada daquilo que ela tinha pensado, ou melhor, que ela um dia já tinha vivido e portanto acreditava que não estava aqui a a fazer grande coisa: "Nem útil me sinto!"
Os medicamentos já não faziam efeito, os internamentos compulsivos também não. Estava a dar a si própria a ultima oportunidade quando recorreu à psicoterapia... Suicidou-se passado 4 meses... Dizem que foi desespero, que já o tinha tentado antes e finalmente teve... "sorte"!
Creio que terá sido pena que ninguém se tenha apercebido que a única coisa que a Maria precisava era de alguém que realmente a ajudasse a ver o quanto bom é viver... O quanto difícil essa vida por vezes é mas, também, o quanto brilhante ela pode vir a ser.
Para todos os efeitos, a Maria nunca saberá o que é ter esse "gosto" na boca... e hoje todos choramos um pouco por ela.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

angústia

E agora?

Concordei em colaborar na publicação deste blog, com promessas de fazer sangue, ainda por cima, deixando a carne viva (nem que seja só a minha) com palavras cortantes ricas em sensações.
E agora?
Um mês de férias, longas semanas sem acesso web, demasiadas preocupações comigo mesmo, casa nova, vida nova, tudo novo! Bem... tudo menos eu, que sou o mesmo de sempre, apenas mais gasto e com o cabelo a insistir em descolorir nos locais mais inesperados - tal como na praia, por exemplo, nada daquilo em que estão a pensar... seus...
E agora?
As férias justificam as quatro ou cinco ausências até agora registadas e a chegada da net cá a casa tornou obsoleta a minha lista de desculpas, particularmente quando até surge uma ou outra publicação do meu "outro lado" - ao menos uma leitura desse lado confirmará inequivocamente qualquer afirmação que eu faça usando o argumento da falta temporal (?) de criatividade.
E agora?
Linko ao tal outro lado e deixo aqui a única coisa decente que me caiu do cérebro durante esta semana desinspirada? Faço-me de esquecido e envio um mail a pedir desculpa? Fujo? Desisto?

Assumo... de chapéu na mão... honestidade acima de tudo.
As facas foram para afiar e, lamentavelmente, hoje tenho que vos servir pão duro e água tépida. Fica a promessa de uma refeição gratuita durante a próxima visita.


(e as desculpas aos sócios, que dirão que a oferta de refeições é meio caminho para a falência de instituição...)

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Imaginário VIII

Mais um dia de trabalho. Mais um? Não, não mais "um".Rafael chegou cedo - como em todos os dias. Extremamente pontual na chegada e nunca preocupado com a hora da saída.
A calma dele, aquela calma que fazia com que tivesse sempre um bom desempenho, aquele sorriso tímido que arrancava sempre uma resposta favorável, o modo assertivo de falar... Muitos colegas o invejavam pela proximidade distante que mantinha, sem saberem que não era forçada, era característica do seu feitio. Sem saberem o quanto ele gostaria, secretamente, de ser mais sociável, mais extrovertido, menos calado.

"Mais um dia de trabalho",
pensou Rafael,
"vai ser só mais um dia de trabalho, ninguém se vai lembrar, não terei que fingir. Só espero ter a prenda que quero".

"Parabéns Rafael!"
Gritaram todos os colegas quando ele entrou na sala do café. Seguiram-se os abraços, as pancadinhas nas costas, as piadas.
"Hã, mais um ano.. menos juízo, já se sabe"
"Então, a tua gaja? Embrulhou-se só para ti?".

Estava tramado.

"Rafael, então, pá? É só mais um ano, pá, um sorriso é só o que se pede, homem! Parece que vieste para um funeral, caramba!"Rafael sorriu, forçado. Precisava de um canto para se enfiar, onde pudesse estar sozinho. Casa de banho. Na casa de banho pode sempre estar-se sozinho. Entrou. Escolheu a divisória mais afastada da porta. Sentou-se na sanita, trancou a porta. Pôs os pés para cima. Pegou no portátil e começou a trabalhar. Era escusado. Ia falar ao chefe. Não podia estar assim.

Saiu da casa de banho. Pousou o portátil em cima do balcão, abriu a torneira. O barulho da água acalmava-o. Arregaçou as mangas da camisa, inclinou-se para a bacia, olhando sempre olhos nos olhos no espelho. Olhando-se nos olhos. A si próprio.

"O que andas a fazer, Rafael?"
perguntou-se enquanto mergulhava a cabeça debaixo da água que corria, fria.
"O que andas a fazer?"

Secou-se. Aquela situação andava a arrastar-se há demasiado tempo. Já nem sabia onde estavam.
O que começou com um beijo fugaz na sala das fotocópias havia quase 2 meses tornou-se fogo, queimava, prendia e libertava e ele não sabia como tinham chegado ali. Já não sabia se era por vício. Já não sabia se era por curiosidade. Só sabia que o desejo da carne era insuportável. A necessidade de a ver, falar com ela. A necessidade de a tocar, de a sentir.
Tinha que falar com ela. Porque para ele não passava de carne: ela dava-lhe o melhor sexo que ele alguma vez tinha tido, sem drogas, sem álcool, sem nenhum tipo de subterfúgio. Sexo, bom. Não, bom seria pouco. Sexo muito bom, como nunca tinha pensado que existia. Era apenas isso. O resto não estava programado.
Ele queria uma mulher "normal". Dona de casa. Boa mãe, com valores. Ao mesmo tempo não queria pensar isto, mas para ele era incompatível que ela fosse excelente na cama e boa mãe de família. Ela queria ter duas: a Marta para aquele sexo do outro mundo e uma rapariga que nem precisava ser linda e boazona, bastava que fosse meiga, inteligente e boa dona de casa - como a mãe dele.

Marta abordou-o no corredor, quando ele vinha ainda a secar o pescoço com o toalhete de papel:
"Preciso falar contigo".

Rafael empalideceu. Encostou-se à parede. Não era de rezar, mas rezou. Rezou porque aquilo era apenas sexo. Nem paixão havia. Sexo. Uma queca fabulosa, um cigarro no fim, o banho. O"Até amanhã, no escritório"sem um beijo sequer.
"Estou grávida."

(Originalmente publicado aqui, no Cai de Costas)

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Vivências... 09


"Nós acabámos por ter muita sorte!"
A Ana relata a situação com uma certa tristeza num olhar cor ébano...
Continua com o olhar um vidrado no fundo da sala e uma única lágrima escapa-se rosto abaixo...
Estive 60 anos sem nunca ter tido um único namorado para cuidar da minha mãe... Um tempo que que não me arrependo mas sabe estive esse tempo todo com horas marcadas para tudo...
Um dia conheci o Jorge numas termas... foi tão elegante e com uma conversa tão interessante - a voz fica embargada e larga uma outra lágrima que mansamente lhe cai pelo rosto, treme um pouco - Recordo o seu cheiro naquele primeiro dia de Primavera como se fosse hoje, como se ele ainda aqui estivesse..."


Faz-se um silêncio profundo na sala que não sei porque razão, me deixa nervosa, ansiosa e um tanto ou quanto inquieta... A Ana não nota, continua a olhar para o fundo da sala e nunca me olha nos olhos em todo o seu discurso...


Continua: Quando viemos embora ele pediu-me o meu numero de telefone...
Passados dois dias de estarmos em Lisboa telefonou-me, convidou-me para um cinema e no fim, quando me trouxe a casa beijo-me... ao fim de todos aqueles anos, quando já não esperava ser beijada...
Casámos passados 4 meses de namoro... O Jorge morreu ao fim de 3 anos de casamento... Os 3 anos mais felizes da minha vida...
Nós acabámos por ter muita sorte... valeu a pena esperar 60 anos... ainda que com ele metade de mim tenha partido e esta estranha tristeza entretanto, se tenha instalado!
Apertámos a mão. Depois desse dia nunca mais vi a Ana, estava bem sem depressão e pronta para compreender que, o seu marido sempre tinha estado dentro de si porque ao partir, também ele deixou metade dele com ela... Hoje os seus filhos e netos, são os filhos e netos da Ana e, na sua despedida, nas suas palavras: "Sinto-me feliz! A vida é muito menos complicada do que normalmente pensamos!"
Não sinto a vida assim, mas estou com esperanças de que venha a sentir... um dia... a vida, como a Ana... ao fim de 60 anos!


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