O Gonçalo tem 1,98 centimetros de um sorriso característico de quem nunca o fez de facto, com intenção mas apenas porque o boca e a medicação assim o ditaram.
Nunca houve uma ponta de sentimento possante. Hoje, contra tudo o que sempre lhe conhecemos: chorou...
Pela primeira vez, qualquer um de nós e dos seus colegas anteviu-lhe um sentimento mais arreigado e menos medicamente perturbado... Hoje tornou-se uma qualquer espécie de Homem: sentiu... aliás, ressentiu-se.
Hoje, o Gonçalo, mudou-se.
Foi para um novo Projecto que lhe irá dar novos "utensílios" profissionais e práticos para amanhã, quando os envelhecidos pais já não estiverem por perto, ele poder fazer coisas tão simples como: as compras do mês, aliás, ter dinheiro para as fazer.
Aqui aprendeu a gerir o dinheiro, a fazer as ditas compras, a comer até, menos doces e a fazer um sem número de coisas que achamos tão normais... saber tomar a medicação, fazer diariamente a higiene, a ter horários, a respeitar regras...
E depois aprendeu, tal como nós o inesperado: a ter saudade. A compreender o peso que é ter-se no peito essa saudade e a sentir falta de certas pessoas... A apreciar o conceito e acima de tudo o sentimento puro de amar alguns dos colegas sem qualquer tipo de interesse... A sentir prazer nas conversas do dia-a-dia, das preocupações que passou a sentir com os colegas e que, para seu espanto os colegas tinham com ele...
O Gonçalo começou por fim, a fazer aquilo que muitos de nós ou nunca o fizemos ou já o esquecemos de fazer: a experimentar, a provar, a saborear a vida e o que de bom por vezes, o ser humano na sua vertente mais surpreendente, nos trás a essa vida.
O Gonçalo hoje chora porque tem o receio de que ao sair daqui, daquilo que ele tão carinhosamente apelida de "ninho", perca todos esses "ganhos".
Ainda não compreende que esses ganhos estão nele, permaneceram nele independentemente da sua saída... São, desde já, ele.
"- Vou ter saudades vossas e sei que isso é bom, porque significa que me ensinaram a gostar de vocês e eu aprendi a sentir isso. Mas não compreendo então esta dor que sinto no peito sempre que acordo e penso em me ir embora. Sei que vou para melhor, as doutoras dizem que sim e eu acredito mas, tenho pouca vontade de partir e muita vontade de chorar..."
Na verdade, ele foi-se embora há coisa de uma hora e tal atrás, só ele e os colegas choraram na despedida...
Na verdade, a Nádia que era para estar de férias hoje, adiou a partida para o ver e eu, farei a hora de almoço saindo ansiosamente daqui, a Rosa desapareceu e portanto...
Na verdade também nós estamos a escolher um sitio longe de tudo e todos para fazermos a "nossa" saudade... e a chorarmos sem vergonha... já que aqui, temos de ser "animais de sangue frio" e perdermos um pouco da nossa humanidade (?!)
Na verdade, o que não entendemos, uns e outros, pelo menos na partida efectiva do Gonçalo é que, ele de facto não partiu, permanece apenas de uma outra forma em nós. Não é uma partida é apenas um género de "espera" para todos conseguirmos ver as coisas noutros prismas e darmos tempo ao outro para crescer... e quando ele voltar sabemos que regressa mais maduro e certamente, abrangerá uma visão mais "mundo" do mundo...
Esperemos que alguns de nós, tenham essa capacidade de abrangência e acima de tudo, que relembremos não só quem nos ama mas também a saborear a vida sem deixarmos que mais nada externo (e que não podemos resolver) nos tolde a possibilidade e o dever de sermos de facto, felizes...
Para nós (técnicos) o chegar ao fim de um dia destes implica o retorno a uma Casa em que a única coisa que queremos muito é o podermos abraçar a pessoa amada e ali ficarmos, o tempo que for necessário em silêncio.
Mas a realidade é que:
Para a maioria de nós (técnicos) o chegar ao fim de um dia destes implica, invariavelmente, chegarmos a casa e a estarmos ainda mais sós...
Boa sorte a ti Gonçalo!

Tudo começou durante uma conversa normal de fim de aulas, com um simples:



