Mostrar mensagens com a etiqueta Me Hate. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Me Hate. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Vivências 51


"Creio que o mais difícil talvez seja agir correctamente." dizia ontem, uma amiga enquanto falámos daquilo que fomos passando pela vida...

Com razão claro está, cheguei a uma outra conclusão: agir correctamente não é difícil, se agirmos de nós para nós, sem os outros à mistura é fácil.
Se agirmos de nós para nós, sem a opinião dos outros a sobrepor-se à nossa, é fácil.
Se agirmos de nós para nós, sem os outros nos darem razões para estarmos enganados, é fácil.
Se agirmos de nós para nós, sem termos coração cá dentro, é fácil.

O problema só se coloca porque no meio do certo e do errado, do preto e do branco, há uma infinitude de cinzentos que literalmente nos fazem duvidar e, na maioria das vezes, nos faz agir... menos... correctamente...

quinta-feira, 13 de março de 2008

Vivências 20...



Há "rios" que se abrem nas nossas vidas nos momentos mais fantásticos...

Os pântanos da vida vida exalam um vapor estranho e, por vezes uma espécie de chuva cai quente seguida de um sol abrasador que nos seca e diz: Que belo dia... que bela vida!


Na memoria tudo nos fica húmido, pegajoso, viscoso e temos a sensação de que só a imobilidade nos dará a luminosidade fumegante que a alma naquele momento necessita.


A solidão dessa imobilidade é tão misteriosa com a selva que nunca conheci.Mas conheço bem a solidão e o que ela representa para muita gente. Há de facto, uma altura em os "rios", os "pântanos", os "mares" nos deixam tão longe de tudo e todos que sentimos que o mundo já não pode fazer nada contra nós...


Novas alianças podem secretamente ser formadas, novas ordens do mundo podem aniquilar o modo de vida em que nasci e vivi, forças tumultuosas e agressiva podem tirar-me a liberdade e a vida. Tudo isto me começa a ser indiferente e a passar ao lado. Pois o importante é que começo agora a compreender que não tenho de fazer acordos com o mundo "balofo" e que me excluí. Tenho apenas de assinar tratados comigo e ser fiel a estes... estes não os nego, estes não os quebro... estes não os violo!


Há pessoas de quem toda a gente gosta, para quem todos reservam um sorriso, a quem todos dão uma espécie de reverência benevolente, quando por detrás está de facto o sentimento mesquinho e egocêntrico de quem diz: "Pobre tolo chegas a ser mais infeliz que todos nós e isso, em última análise, deixa-nos muito mais felizes quando chegamos à noite ao espelho e nos olhamos!". Na vida social dizemos-lhe: "Sim ajudamos-te, claro!" mas na realidade queremos é que se remeta para a sua infelicidade porque sempre teremos algo de que falar!


Os que sempre querem agradar têm algo de prostituto em si, cheiramos-lhe a promiscuidade do "bas-fond" mas os outros, são piores, são a traição, a falsidade o cheiro a perfume caro porque o podem comprar.


Na solidão uma pessoa chega a conhecer tudo e já não tem medo de nada, apenas desprezo por uns e outros. Olhando para trás sentimos apenas náusea pela segurança que nos dava aquela felicidade bacoca, falsa, ordenada.


Não é verdade que o destino entre cego e sem aviso na nossa vida, não, ele entra porque lhe abrimos a porta e muitas vezes, o convidamos mas, também é verdade que ele só permanece porque o "aconchegamos, lhe servimos grandes repastos" e ele sente-se... "em casa"! Há destinos fatais e aos quais achamos que não podemos fugir e depois há apenas o destino... como o tal "rio" de que há pouco vos falava... mudei de emprego... faço voluntariado nocturno... quebrei com todos os sítios e vícios que conhecia e tudo num só dia... tudo apenas porque ao andar deixai de olhar para a calçada e pensei: "Espera, o futuro é em frente, não é na poia que ficou lá atrás!"

quinta-feira, 6 de março de 2008

Vivências 19...

Conheci o Liam num dia de nevoeiro intenso sobre ambos os terraços, o dele da avó dele,
e o meu, precisamente da minha avó. Deveriamos ter uns 7 ou 8 anos, nascidos, portanto,
no mesmo ano "dourado" (quase de bijuteria) pós revolução.
Durante alguns dias, limitámos-nos a olhar-nos por cima do muro, que fazia a separação
entre os dois rés-do-chão. Recordo o seu cabelo liso, louro e os seus olhos de azul profundo
era igual ao pai... mais baixo, claro!
Anos mais tarde ele diz que se recorda apenas do sorriso rasgado que parecia abarcar
o mundo - confesso que fico algo orgulhosa mas, ao mesmo tempo, também acho que
era tão catita com aquela quantidade enorme de remoinhos na cabeça e tinha uns olhos
tão vivos que não contenho o comentário e digo-lhe:
- Bolas, só isso?
Claro que o Liam se riu e abanando gentilmente a cabeça disse:
- Não, mas o resto tu já sabes, seria só alimentar-te o ego!
Faço sinal afirmativo e continuamos a recordar...
Nesses dias em que nos observavamos a vida era simples (como creio que é sempre em criança),
eu espreitava muitas vezes "à socapa" o que ele fazia e ele fingia que não me via e fazia
o inverso ignorando-o de propósito também.
Um dia colocou-se em cima do muro da minha avó e perguntou-me:
- Tenho aqui Tulicreme, queres? ... Só tenho 1 colher mas nem trouxe pão!
Aquilo que, à priori, poderia ter sido visto por uma invasão de território, afinal estava no MEU
muro, soou-me de repente a música, daí respondi-lhe prontamente:
- Claro que sim!
Confesso que, nessa altura, era mais despreocupada e MUITO mais fácil de contentar... Pena
não ter assim permanecido e só ter desenvolvido um pouco mais de sentido de humor!!!
Nesse dia portanto, comemos uma caixa inteira de Tulicreme que não deu bom resultado
no dia a seguir, mas para ser verdadeira, não me queixo. Falámos sobre coisas fantásticas,
das histórias dos trabalhos dos nossos pais, da maravilhosa colecção que eu tinha de carimbos
do emprego da mãe e da extraordinária colecção que ele tinha de borrachas de cores, tamanhos
e CHEIROS diferentes. Viamos, ao pormenor, todos os berlindes que tinhamos reflectidos ao sol,
notávamos em todas as nuances que eles nos ofereciam nos vários tecidos que lhe colocávamos
por baixo e desmontávamos/montávamos infinitamente os nossos triciclos para os fazermos
mais rápidos... Claro que, nas descidas, sem travões, nem sempre o mais rápido era o mais
feliz mas, certamente, o "escavacado" de nós dois... Não havia problema, nessa altura as
"feridas" curavam-se com muito mais facilidade: soprando e dando um beijinho.
No Inverno, faziamos uma tenda de índio onde tomávamos intermináveis chás e umas
bolachas que já não existem. E no Verão, estendiamos as nossas toalhas, tomávamos
prolongados banhos no tanque de lavar roupa das nossas avós e, estendiamos-nos preguiçosamente ao sol de mãos dadas.
Era apenas com o Liam que me sentia bem naquela idade e julgo que, o contrário também
era verdade. Falávamos de coisas que os outros miúdos não percebiam - na altura qualquer
um dos nossos pais ouvia muita música clássica e liam livros que nós tirávamos "à socapa" e
tentávamos dar significado a cada frase - e depois desfrutávamos plenamente dos prazeres
mais simples da vida... olhar as árvores, ouvir os pássaros... Tudo isto para os nossos "colegas"
era altamente estranho!!! Muitas foram também as vezes que falávamos de planos para o
futuro, conhecermos outros povos, ajudarmos as pessoas e até, ajudarmos outras pessoas noutros sítios...
Um dia, os pais do Liam separaram-se e ele mais as irmãs foram com o pai para Macau.
Recordo esse dia com um misto de angústia, tristeza e perda. Nunca tinha perdido ninguém.
Passaram-se muitos anos até que voltasse, as irmãs vieram para estudar e partiram de novo
na faculdade, uma para Yale e outra para a Sorbonne. O pai voltou no fim de 2000 quando
Macau deixou de ser "empréstimo" a portugueses. O Liam, que esteve grande parte da vida
profissional ligado a ONG´ s voltou esta semana... não sei como, mas na sexta passada tinha
uma carta sua no meu correio em que as primeiras palavras
eram "Deduzo que ainda aqui vivas..."
Ontem encontrei-me com ele, como se nenhum ano tivesse passado por nós: eu continuo, na
sua opinião a cheirar a algo almíscarado e ele, a especiarias... O seu cabelo liso, louro e os
seus olhos de azul profundo e o meu sorriso rasgado e a abarcar o mundo, ainda assim:
- Estás altíssimo, as tuas orelhas estão lindas e pequenas e a tua voz... és um homem!
- Sim, e tu continuas uma garota baixota de mãos lindíssimas e com um corte de cabelo que
nunca vi noutro sítio!
Sorrimos, falámos do que temos feito... não dormimos essa noite, ele passou a noite lá em casa
no sofá e, no dia a seguir não fui trabalhar, continuámos a falar... até hoje!
Afinal acabamos por ser mais! Não muito... mas o suficiente para... marcar a diferença (?!)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Vivências 18...


O teu cheiro como disseste e muito bem, um sábado destes, nunca se confundiu com o meu,
nunca se partilhou com o meu, nunca o cheirámos e, quem não soubesse diria que
teríamos apenas cheiro de perfume... fomos amantes numa época perdida, num tempo
parado só para nós, e parecia o reino, tinha, todo ele, adormecido.
Tinhamos, no entanto, risos semelhantes, livros partilhados e um sexo que ocorria,
na maioria das vezes de forma prazenteira, fluída e despreocupada, nunca apaixonada (já sei!)
mas com ternura, aquela que se espera dos amigos que se partilham e se vão partilhando,
inevitavelmente, uma vida inteira...
Chovia naquele sábado e nada faria supôr que nos levantássemos naquele ninho por nós
formado. Rimos quando afirmámos ao mesmo tempo: "Hoje faz-se dieta!". Dormiu-se na
forma esperada: em concha, enroscando maquinalmente o nosso corpo com o do outro,
e sempre que por vezes algo nos fazia acordar, ficavamos longos minutos a olhar-nos,
sem nunca perguntarmos: "O que se passa? Porquê?..." Depois falávamos do banal:
de como nos dava gozo ouvir os ventos fortes e a chuva brutal nas vidraças do tamanho de
paredes... Falávamos do Mundo: da política, das estatísticas, dos programas que viamos
do NG... Por fim, falávamos do casual: dos nossos amigos, dos últimos que viste e das
novidades que te contaram, dos que comigo se cruzaram e daquilo que rimos...
Chegámos à conclusão que, estavam todos "correctamente" casados, com muita filharada,
muita dívida e dor de cabeça... e que, não obstante, tal como nós, sentiam uma imensa
saudade de um tempo que hoje, só nós, é que ainda sentimos. Claro que fizemos o nosso
papel social e dissemos: "Oh como te compreendo!", não revelámos nada e, à noite, só os
nossos olhos consentiam essa sensação silenciada...
Queria muito nesse dia levantar-me... tu não! Queria muito ver o orvalho nas flores... tu não!
Então, enquanto lias, fui à varanda, estava de calções e uma t-shirt tua, descalça e, durante
minutos, o vento e a chuva bateram-me fortemente na cara e, o mar, lá ao fundo estava revolto.
Bateste na vidraça, pediste para eu voltar para dentro porque iria, certamente, apanhar uma
constipação, ri-me, disse-te que te amava muito e tu, ternamente, abriste a portada,
comigo fria e molhada, apertaste-me fortemente, quase que a chorar muito baixinho
disseste: "Eu também... tanto!"
Parou de chover entretanto, no segundo que se prolongou aquele abraço e, inesperadamente,
um sol vibrante e quente surgiu no horizonte aquecendo, de imediato, a casa. "Bom, parece que
ganhaste, vamos lá então a essa praia... Já sei, eu levo o livro, tu levas a prancha, eu levo a
paciência e tu levas... as toalhas???" - "Sim, é isso!!!" respondi-te, e de imediato comecei a
despir-me para colocar o bikini...
Tu fazias nudismo e, confesso, ainda bem, adorava olhar o teu corpo nu, ficava horas a contar
os teus sinais, a acariciar-te a pele bronzeada, a pentear o teu longo cabelo... Deitei-me um
pouco contigo na mesma toalha (a tal king size) que tu odiavas, despi-me também e, enquanto
lias, fazias-me festas ao longo das minhas mãos e chamavas-me lagarto, deitava-me em cima
do teu peito e dormitava descansadamente. Dormiste a dada altura também, com a cabeça
pacificamente poisada sobre o livro, tirei-to da cabeça e ajeitei-a. Abriste levemente um olho,
sorriste e disseste: "Obrigada... por tudo!"
Peguei na minha prancha e fui para o mar, havia possivelmente mais dois ou três surfistas,
um pouco mais longe, de resto a água, tal como a praia estavam desertas. Apanhei três,
quatro, cinco ondas e o mar estava espantosamente calmo. Não sei o que sucedeu, juro-te, mas
aquela última onda vinha numa formação perfeita, perfeita demais para se perder, apanhei-a
bem, cortei bem todo o tubo e, ao meio, sei que olhei para a praia e tu continuavas a dormir,
creio que terá sido ai que me desequilibrei porque a ultima coisa de que tenho recordação, é
da brutalidade da onda que, a cada metro, me atirava mais fundo, olhava para cima e só via
espuma, bolhas e os raios de luz perfurando todo aquele grande azul...
Tentei, com todas as forças nadar em direcção à superfície... ainda senti alguém mergulhar,
ainda senti a areia da praia mas, acima de tudo, naquele último momento, senti por fim, o teu
cheiro e julgo que foi uma solitária lágrima tua que me percorreu o lábio inferior.
Continuo a amar-te a ti e à tua "prisão"...
Continuo a amar o mar e a sua "liberdade"...
Continuo aqui... Para bem e para o mal!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Vivências 17...

No primeiro dia sentimos uma espécie de frio que nos percorre a ponta dos dedos
e a extremidade dos lábios, depois há uma espécie de cegueira que nos coloca
num precipício e nos deixa dormentes. No primeiro dia, julgamos que
não passa...
No segundo dia criamos um qualquer tipo de imobilidade e ficamos com um
olhar inexpressivo, quase que acreditamos que aquela realidade
não será bem real, não será de facto. No segundo dia, julgamos que passa...
No terceiro dia temos a sensação de uma visão mais límpida de que, em todos
os poderes humanos, existe um delicado, ligeiro e quase imperceptível
desprezo por aqueles que dominamos. Só conhecemos a alma humana se
conhecemos, compreendemos e desprezamos (ainda que muito discretamente)
aqueles que são forçados a render-se. No terceiro dia, pensamos que passa...
No quarto dia, verificamos que não queremos que ninguém nos pertença de
facto, porque dando-nos conta desse desprezo que sentimos queremos
perdê-lo, não senti-lo, mas, ainda assim, temos um desejo meio obscuro,
meio secreto que ele/a seja só nosso/a, sem desprezo pela sua fraqueza porque,
logo de seguida se nos olharmos ao espelho, também somos fracos.
No quarto dia, o pensamento de que vai passar é mais forte...
No quinto dia, sentimos que as nossas alianças são demasiado complexas e
frágeis e, como todas as relações humanas: fatais. Têm de ser preservadas do
dinheiro, da pobreza humana e libertadas mesmo da sombra da inveja e até da
indiscrição. Bebe-se então para se entrar num êxtase momentâneo e armamos o
nosso circo. Os olhos ficam então injectados de sangue. Num primeiro momento
julgamos que vamos morrer, depois notamos que foi apenas o ritmo da nossa vida
que mudou. No quinto dia, acreditamos que passa...
No sexto dia, ficamos absolutamente contaminados com essa febre, essa fúria
que não tem origem em nenhuma bactéria, água, planta. Quem bebe só, safa-se mais
facilmente. Nos dias que passam, a paixão está escondida na vida, tal como o tornado
se esconde atrás dos pântanos, entre as montanhas e florestas. Há no sangue apenas a
fúria do dia que passa e rasga a pele, o coração e os nervos. Passa-se então, a adquirir
um modo rígido, brando, correcto, bem-comportado para que não seja possivel notar-se
a sua paixão... Mas no seu íntimo é diferente. No sexto dia sentimos que passa...
No sétimo dia, a composição do sangue altera-se. Altera-se mas não se torna menos
extravagante: a raiva contida transpira por todos os poros, a febre aumenta e
a paixão também. Os olhos já só choram sangue e todos os musculos do corpo doem
de forma indescritível. No sétimo dia, sabemos que mudámos...
não sabemos é se foi para melhor!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Vivências 16...

É extraordinário como um pequeno apontamento pode mudar a nossa vida
da forma mais desconcertante...
O nascimento de um filho não planeado...
A descoberta de uma mãe há muito perdida nas nossas lembranças...
Uma doença inesperada...
A perda de alguém... quase que planeada...
Um sentimento de tristeza ou de revolta...
Um amor não correspondido...
Desculpem, disse "um pequeno apontamento"?! Enganei-me!
Qualquer um dos acima mencionados não é assim tão pequeno... ainda
assim, desconcertante!
Vendo bem, nada disto importa se tivermos em conta que tudo isto
depois de ultrapassado não significa mais do que o passado... existem
outras coisas para além do egoísmo, da paixão, da vaidade... da dor.
Em dada altura todos nós já mergulhámos (ou continuamos mergulhados) em
qualquer espécie de dor, de penumbra, de silêncio que antevê uma forma de morte
e depois, na maioria das vezes, seguimos: deixamos de adiar viagens,
começamos a seguir o instinto, e sentimos que estamos de novo a viver ou, pelo menos,
as lágrimas já não nos sufocam, o dia a dia torna-se mais suportável e as pessoas
deixam de nos transmitir aquele sentimento de náusea...
Depois, muitas das vezes, acordamos apenas para, de novo, nos sentirmos numa
espécie de febre que nos leva ao retomo do delírio, para a irregularidade já
vivida, já conhecida... Desta vez, após a mentira, não chorei, estava apenas
muito cansada, porque havia 4 noites que não dormia. Os dias passaram com
espantosa paz (ainda que artificial) e os analgésicos, os calmantes e todo aquele cocktail de
medicamentos improvisado aplacaram e deixaram agradavelmente dormente toda a
existência diária. Condensa-se a respiração numa espécie de sorriso,
mantemos a rotina normal e, garantidamente, ninguém dará pela nossa invisibilidade,
falam-nos simpaticamente, crêem que somos boas pessoas porque nada dizemos
e contudo... eu, de pé continuo ajoelhada numa reza fantasma pedindo apenas
para esquecer... deixar o tempo passar... querer que passe depressa...
Naturalmente, ainda sentimos todos, um vento de humanidade quando nos olhamos
ao espelho, quando os nossos reflexos se cruzam, quando os cheiros ainda
se notam... ouvimos murmúrios de palavras... promessas... que um dia
exprimiram vida, significado. Mas, mais tarde, é sempre outra coisa,
não seria bem aquele intuito...
Chegamos a um momento caótico em que os sentimentos, as palavras,
são todos supérfulos, transmissores de uma mania, teimosia, de acharmos que
ser-se humano é isto... E talvez seja. Só já não o é para mim... creio que para muitos de nós!
Sentimos-nos menos inteiros, mas mais sinceros connosco, sentimos-nos mais vazios mas
mais repletos de nós... e por vezes, há dias em que apenas, somente, não sentimos
e apenas queríamos que a verdade se soubesse sem a perguntarmos,
que os sentimentos (os poucos) se sentissem sem que pedissemos para serem ditos,
que o estar-se, o ter-se, fosse apenas assumido sem que para isso houvesse discussão...
Até lá, nada de facto vale muito... assim, deito-me hoje, como ontem...
em insónia, esperando apenas que a noite venha e outro dia nasça
e a noite venha e...

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Vivências 15...

Que momento redentor e raro este que passo convosco daquelas horas mais plácidas...
Que prazenteiros estes vossos silêncios, risos partilhados e conversas escutadas
que se vão perpetuando nas paredes ocas deste sítio e que acabam por preencher
o vazio sentido (de formas diferentes)por todas nós.
Há uma imensidão de pequenos pormenores das vossas histórias que me são
tão apelativos, tão reais, tão vividos que por vezes gostava de lá ter estado.
Os vossos prazeres mundanos certamente que não são muito diferentes
dos meus... um sitio para dormir onde não se oiça constantemente o gemer
de um colega a ressacar, um lugar onde a alimentação não seja fria e não tenha
3 dias, qualquer agasalho um pouco mais forte neste frio cortante que por vezes
se faz sentir durante a noite...
Depois... bom, depois, queríamos todos viver, viver um pouco mais,
sentir um pouco mais e sermos algo diferente daquilo que somos, somos.
O duche que corre, um cacifo que se fecha, uma chave que se entrega,
um adeus que se dá.
Um fim de dia que começa, apenas para recomeçarmos tudo de novo amanhã...
Fazemo-nos de novo à estrada na esperança de no fim do dia reencontrarmos
algum conforto, algum abraço ou beijo mais quente... não o encontramos sempre
mas no dia seguinte, o ritual repete-se e pensamos, como sempre:
"Talvez seja Hoje. Talvez Hoje me sinta Vivo!!"

sábado, 15 de dezembro de 2007

Vivências 14...

Foto: Inácio Silva

Mais um ano que finda...

Estiveram bem no teatro que andámos 1 mês a preparar e sinto um orgulho quase desmedido em vós que hoje, mais do que nunca sinto como minha família... No nosso almoço vi por fim, o sorriso de alguns de vós que desconhecia, reparei na camaradagem e senti, uma imensa felicidade de ali estar, cansada, estourada mas feliz!

Gostava de dizer que os meus "utentes" são quase meus filhos e os meus colegas e chefia quase meus irmãos e pais... sempre fará com que me sinta menos só nos dias que correm... Porém, dizê-lo não seria verdade... ainda que sentido muitas vezes a realidade é uma outra!

Não é grave. Nos dias que correm a verdade é que já pouca coisa importa e isso não é de todo mau... dá-nos uma certa liberdade, uma certa distância de tudo e todos, o que nos torna... não diferentes, não melhores ou piores... apenas mais humanos ainda que, mais distantes dessa mesma humanidade... Não sei bem como explicar... sou assim, um pouco convergente na divergência!

Este ano não foi igual a todos os outros... vivi muita coisa, chorei por muitas razões, ri por muitas situações mas, acima de tudo, encontrei uma nova "Me Hate" e isso vale todas as viagens interiores que este ano fiz ainda que, não tenha feito nenhuma ao exterior... hoje como alguém diria, estou mais perto de ser eu e de saber o que quero... ainda que, amanhã, queira ser mais, anseie por mais e seja mais!

Quero muito que este ano que se aproxima seja o começo disso mesmo, não só para mim... mas para todos vós que fui conhecendo aqui, ali e um pouco mais além...

Até já... como sempre!

ME HATE

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Vivências 13...

A Isabel era uma rapariga comum como outra qualquer...
Sempre metida um pouco no seu mundo achando, durante muitos anos que pertencia aquele universo feito apenas de si e dos livros que não lia, devorava.
Chegou a uma altura da sua vida em que achou que o mundo não podia ser apenas aquilo que estava contido em si ou o que tinha lido...
Procurou e achou, um manancial de gente, coisas e acontecimentos que a deixaram no inicio entre a perplexidade e a surpresa... Depois acostumou-se a ser um "bicho social"...
Gostava daquilo e parecia que os outros também gostavam dela... Não é de espantar, dizia umas piadas engraçadas para os mais distraídos e umas mais rebuscadas para os que mantinha "por perto"... Sabia falar a sério e quando falava toda a gente a ouvia, e essa sensação de ser o centro das atenções agradou-lhe... durante muito tempo, tempo, eventualmente demais...
Depois cresceu, aprendeu que tem de se abdicar de algumas coisas, em ordem se obtermos outras...
E assim... decidiu, sem mais nem porquê: VIVER A VIDA!
Os que não a conheciam perguntavam a razão de tal decisão, de se afastar... os que a conheciam silenciaram a pergunta e continuaram a vê-la quando ela queria, quando eles podiam... As pessoas não se perdem... eventualmente: os textos!

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Vivências 12...


Ouvindo Amy Winehouse na sua melodia mais bem conseguida "Black to Black", recordo a historia do Henrique...
50 anos, 30 e tal de toxicodependência.
Muitas vezes a tentar mudar de vida...
Ainda mais vezes a tentar eventualmente, mudar de hábitos...
Companhias, amigos, sítios...
Por fim, depois de muito tempo de esforço, alugou uma casa, tinha encontrado um emprego: "O patrão é uma gentil pessoa, à moda antiga!"
Tinha decidido naquela noite estrelada que lhe amansava o coração como um manto quente que, amanhã telefonaria ao filho que não via também, há coisa de 30 e tal anos...
"Devia estar um homem!" o pensamento embalou-o pela noite.
No dia seguinte, em muitos anos, acordou pela primeira vez com um sorriso franco e sincero...
Telefonou ao Bruno, do outro uma voz trémula quando ouviu:
- "Filho sou eu..."
- "Sim... pai... então e como estás?"
- "Bem. Com saudades tuas... Creio que já nem me lembro da tua cara... queria que soubesses que tenho uma casa, que estou recuperado, que tenho um emprego, que te posso ajudar... gostava que viesses cá um destes fins-de-semana, só para te ver, não precisas de demorara muito se não quiseres..."
- "Oh pai... pois... quer dizer..."
- "Compreendo... não podes! Tens a tua vida, as tuas coisas!"
- "Não... preciso de saber só se a mãe me empresta o carro!"
Assim ficou, marcado para dali a 5 dias.
O Henrique mal viu o Bruno, não cabia em si de contentamento.
Almoçaram numa tasca que segundo diziam tinham uns belos petiscos, e tinha mesmo.
Decidiram dar uma volta na pequena vila onde agora o Henrique vivia com medo da cidade, daquilo que lhe lembrava outras coisas.
Por fim, o Henrique lembrou-se que podiam ir a uma das praias fluviais que havia em fartura na zona... O Bruno acedeu, estava calor.
Não havia muita gente, estavam acompanhados apenas por um casal que namorava alegremente.
Falaram da mãe, como estava o que tinha feito, falaram da namorada do Bruno e de como gostava dela e até já lhe sentia algumas saudades das curtas horas que ali estava... O pai sorriu e pensou "Está bem, feliz, que bom!".
Tudo mais ou menos que se quer para um filho, ao fim de 30 anos.
"A tua mãe fez um bom trabalho e creio que o teu padrasto também não deve ser má pessoa!" Sorriu-lhe e piscou-lhe o olho.
O sol estava de facto quente, o Bruno comentou:
- "Que sitio agradável de facto. Vou dar um mergulho!"
- "Espera lá, as águas aqui são um pouco como as mulheres: cheias de manias!"
Mergulhou...
Lá em cima, ninguém sabia, tinham aberto as comportas da barragem...
De repente o pequeno riacho tornou-se num imenso mar tortuoso...
O Bruno só teve tempo de ver o pai desaparecer no meio da turbulência...
Passados dois dias deram com o corpo vários metros abaixo dos pequenos rápidos...
Verteu-se uma lágrima...
Apenas uma, por tudo o que ficou por cumprir!

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Vivências 11...


"Fiel é algo que não consigo ser Dra."
O Tiago di-lo de forma despreocupada como se fosse o mais normal de se ser!
Mais à vontade fica ainda quando admite que não o faz com qualquer tipo de protecção: "Sabe que conheço as miúdas desde que éramos gaiatos por isso, não percebo...!"
Não dissertamos acerca do que é ser fiel mas sim acerca da sua saúde, dos cuidados que deverá ter com ela... O Tiago contudo, surpreendentemente, pergunta: "E para si o que é ser fiel?"
Ignoro a provocação uma e outra e ainda outra vez, na quarta investida "cedo e respondo o "banal cool": "É sermos fieis a nós próprios!"
Fica em silêncio mais uns minutos e começa-se a antever alguma ansiedade estamos no Curry Cabral nos infecto contagiosos e estamos à espera dos resultados das análises...
Volta a dizer: "Mas e você é fiel a si como?"
Volto a falar da importância da sua saúde de sua historia de vida e fujo um pouco à pergunta que acho pertinente mas, demasiado, intrusiva...
Entrou nesse momento uma rapariga, muito magra, já com marcas de desgaste da doença e com uma filha que não devia ter mais de 2 anos ao colo... Não sabíamos quem suportava quem... A criança linda de feições de cuidadas ria para mãe e dizia-lhe: "Tás triste mãe!" a mãe disfarçou uma lágrima e depois respondeu com um leve acenar de cabeça dizendo: "Não amor, é só porque não gosto de hospitais!" a criança creio, não se deixou enganar, confortou a mãe disse-lhe "Eu sei mãe também não gosto nada de vir às picas!"...
O Tiago olhou-me um pouco de lado e comentou quase em surdina: "A mãe nunca vai ver aquela miúda crescer pois não?", de forma quase que automática e para não deixar que outros sentimentos tomassem conta de mim disse-lhe rapidamente: "Não!"
"Sabe - continuou ele - se eu tiver algum problema é porque fui parvo durante muito tempo mas olhe que esta rapariga pode ter tido mesmo só azar... é triste!"
Não lhe disse nada, fizemos de novo um grande silêncio...
Passado pouco tempo perguntou mais uma vez: "O que é sermos fieis a nós?"
Estava esgotada nesse dia, tinha tido um dia de trabalho intenso no dia anterior, no próprio as coisas não tinham corrido melhor... estar no Curry Cabral aquela hora possivelmente, era a ultima coisa que me apetecia...
Acabei julgo, por ceder: "Sermos fieis a nós próprios é complicado e nem sempre significa o mesmo para cada pessoa... não sei o que lhe diga...!"
"Sim mas para si é o quê?"
"É o comprometermo-nos de tal forma com o nosso intimo com a nossa ética qu que depois não conseguimos pedir menos do que isso ao outro... se ele não cumpre... temos a sensação de traição, de infidelidade, de engano, de falsidade...! Ninguém dá sem no fundo, querer receber algo em troca, nem que seja apenas, amor..."
"Ah... compreendo... pois então tinha razão... Não consigo ser fiel... nem a mim mesmo!"
"Sim Tiago, mas neste caso garanto-lhe, é você quem perde!"
O resultado das análises por fim, chegaram, pediu-me para ser eu abrir... Não tinha HIV mas 2 tipos preocupantes de hepatite... Chorou pelas duas razões e conclui-o: " Tenho de descobrir a minha fidelidade..."
"Penso que seria melhor que assim fosse Tiago... penso que sim..."

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Vivências 10...


"Sinto-me muitas vezes entre a margem da loucura e da sanidade. Creio que passar tanto tempo no meio da ponte só me ajuda a ver os outros passarem e a realizar que eu continuo na mesma!"
A Maria disse isto com o à vontade de quem está nesse ponte faz, de facto, muito tempo... mas acima de tudo disse-o já sem expressão de angústia na cara sem preocupação, sem vontade de nada...
Na realidade a Maria há muito que achava que a vida não era nada daquilo que ela tinha pensado, ou melhor, que ela um dia já tinha vivido e portanto acreditava que não estava aqui a a fazer grande coisa: "Nem útil me sinto!"
Os medicamentos já não faziam efeito, os internamentos compulsivos também não. Estava a dar a si própria a ultima oportunidade quando recorreu à psicoterapia... Suicidou-se passado 4 meses... Dizem que foi desespero, que já o tinha tentado antes e finalmente teve... "sorte"!
Creio que terá sido pena que ninguém se tenha apercebido que a única coisa que a Maria precisava era de alguém que realmente a ajudasse a ver o quanto bom é viver... O quanto difícil essa vida por vezes é mas, também, o quanto brilhante ela pode vir a ser.
Para todos os efeitos, a Maria nunca saberá o que é ter esse "gosto" na boca... e hoje todos choramos um pouco por ela.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Vivências... 09


"Nós acabámos por ter muita sorte!"
A Ana relata a situação com uma certa tristeza num olhar cor ébano...
Continua com o olhar um vidrado no fundo da sala e uma única lágrima escapa-se rosto abaixo...
Estive 60 anos sem nunca ter tido um único namorado para cuidar da minha mãe... Um tempo que que não me arrependo mas sabe estive esse tempo todo com horas marcadas para tudo...
Um dia conheci o Jorge numas termas... foi tão elegante e com uma conversa tão interessante - a voz fica embargada e larga uma outra lágrima que mansamente lhe cai pelo rosto, treme um pouco - Recordo o seu cheiro naquele primeiro dia de Primavera como se fosse hoje, como se ele ainda aqui estivesse..."


Faz-se um silêncio profundo na sala que não sei porque razão, me deixa nervosa, ansiosa e um tanto ou quanto inquieta... A Ana não nota, continua a olhar para o fundo da sala e nunca me olha nos olhos em todo o seu discurso...


Continua: Quando viemos embora ele pediu-me o meu numero de telefone...
Passados dois dias de estarmos em Lisboa telefonou-me, convidou-me para um cinema e no fim, quando me trouxe a casa beijo-me... ao fim de todos aqueles anos, quando já não esperava ser beijada...
Casámos passados 4 meses de namoro... O Jorge morreu ao fim de 3 anos de casamento... Os 3 anos mais felizes da minha vida...
Nós acabámos por ter muita sorte... valeu a pena esperar 60 anos... ainda que com ele metade de mim tenha partido e esta estranha tristeza entretanto, se tenha instalado!
Apertámos a mão. Depois desse dia nunca mais vi a Ana, estava bem sem depressão e pronta para compreender que, o seu marido sempre tinha estado dentro de si porque ao partir, também ele deixou metade dele com ela... Hoje os seus filhos e netos, são os filhos e netos da Ana e, na sua despedida, nas suas palavras: "Sinto-me feliz! A vida é muito menos complicada do que normalmente pensamos!"
Não sinto a vida assim, mas estou com esperanças de que venha a sentir... um dia... a vida, como a Ana... ao fim de 60 anos!

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Aviso à navegação...


Por motivos de maior, o meu blog (She Hate Me) passou a ser restricto, lamento mas, teve de ser, entretanto se eu me esquecer de convidar alguém podem sempre contactar-me para o: me.hate76@gmail.com e pedirem-me acesso.
Obrigada pela compreensão desde já.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Vivências... 08


- Quanto tempo ainda me resta?
- Nenhum, ou todo se você decidir! A doença está lá, já se instalou... a única coisa que agora poderá fazer é tomar a sua medicação e tentar minorar alguns dos comportamentos com terapia adequada...
- Mas tem a certeza que sofro mesmo disso?
- Oiça Rute você preenche 6 dos 9 critérios. E para se sofrer deste transtorno em particular, você só precisava de preencher entre 4 a 5...
-Mas então diga lá todos... pode não ser, pode não ser bem isso...
- Passo a dizer-lhe todos os Critérios de Diagnóstico para Transtorno da Personalidade Borderline... e depois então digo-lhe dos quais você... sofre...
Você já concordou que tem aquilo que chamamos um padrão invasivo de instabilidade dos relacionamentos interpessoais, auto-imagem e afectos com uma acentuada impulsividade, que começou no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos, verdade?
- Sim mas...
- Então oiça, os critérios são estes:
  • (1) Esforços frenéticos para evitar um abandono real ou imaginado.
  • (2) Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização.
  • (3) Perturbação da identidade: instabilidade acentuada e resistente da auto-imagem ou do sentimento de self.
  • (4) Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais à própria pessoa (por ex., gastos financeiros, sexo, abuso de substâncias, direcção imprudente, comer compulsivamente).
  • (5) Recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento automutilante.
  • (6) Instabilidade afectiva devido a uma acentuada reactividade do humor (por ex., episódios de intensa disforia, irritabilidade ou ansiedade geralmente durando algumas horas e apenas raramente mais de alguns dias).
  • (7) Sentimentos crónicos de vazio.
  • (8) Raiva inadequada e intensa ou dificuldade em controlar a raiva (por ex., demonstrações frequentes de irritação, raiva constante, lutas corporais recorrentes).
  • (9) Ideação paranóide transitória e relacionada ao stresse ou severos sintomas dissociativos.

Infelizmente Rute você preenche o critério 1, 2, 4, 6, 7 e 8...

- Pois... é verdade... mas sabe ainda o pior é mesmo o sentimento de vazio... Tem de me ajudar, porque há dias em que de facto tudo parece não fazer sentido algum...

- A vida, nem sempre faz sentido em muitos casos, mas julgo que a sua fará ainda menos sentido em alguns dias... Compreendo-a e estarei sempre ao seu lado para a acompanhar porque posso dizer-lhe desde já que esta vai ser uma longa jornada... Rute, há uma parte da "corrida" que eu a irei acompanhar mas, saiba que depois... Haverá, a dada altura uma parte do "caminho" que terá de ser você a fazer...

- E isso acha que vai custar?

- Sim! Vai!

- E se eu precisar de si, da sua ajuda posso telefonar?

- Pode! Mas em última análise, só você se poderá ajudar a si próprio... Ainda assim, estaremos cá! Não está sozinha!

- Sim, por favor, então faça-me esse favor... não me deixe... não sozinha!

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Vivências... 07


"Dra. Luísa boas férias e volte depressa."
17/08/2007
A si, Xavier que por esta hora já sabe que não vou regressar (pelo menos, não na celeridade que desejava):
(Ao leitor desprevenido e/ou insensível, esta carta não deve ser lida em forma de queixume, tristeza ou sequer como: "Oh pobre de mim tenham lá um pouco de compaixão". Para que fique, bem claro: MERDA para tudo isso, para todas essas pessoas e para quem julga que tem em si o dom da verdade... da dor e de mais não sei o quê!
O espírito das cartas há muito perdido, sempre me deu prazer e aqui reencontrei-o muitas vezes. Nas cartas que EU escrevia-a nunca perguntei o banal "Estás bem?" ou o bacoco "Gostava de estar contigo!". As cartas que escrevi e as que sempre recebi, reduziram-se sempre a descrever os dias que passavam muito mais lentos, certamente, sem presença daquela pessoa, fosse amigo, parente ou amante... Espantem-se os tolos, ainda as escrevo ainda a as recebo e são dos poucos momentos privados que guardo com o mais profundo dos carinhos.)

De novo: a si Xavier, que sei também, que não vai ler esta "Carta":

As férias não foram boas!

Talvez tenham sido um misto de adeus, dor, ausência e desespero.

Não interessa a causa, não interessam os actores em teatro tão deprimente... Foram então, o que tiveram de ser: um barco encalhado!

Gostava sinceramente, em ter cumprido, o seu amável desejo e portanto que elas fossem a execução se não do que se entende por "bom" pelo menos aquilo que descrevemos como aprazimento...

Assim, aqui fica uma descrição menos triste de um desses dias para não correr o risco de o enfastiar:

"Acordei todos os dias, com um sentimento profundo de descanso e de liberdade... como se o amanhecer permitisse o fazer-se tudo. Espreguicei-me prolongamente, quase não querendo sair dali.

O coração batia compassadamente e quase tão tranquilo como a minha alma... sorri. Olhei para o lado e ele estava ali, dormindo como sempre foi seu hábito, um pouco mais... Observei-o como todas as manhãs se deve observar o grande amor da nossa vida e, em em movimentos lentos, vesti-me e sai porta fora...

Chovia, um tipo de chuva mansa e miuda que fazia as crianças rirem e os mais velhos fugir. Coloquei as mãos nos bolsos, andei como se nada de facto me pudesse atingir e fui até à pastelaria mais perto...

Pedi o tal do café e ouvia sem querer as conversas alheias das vizinhas que não tinham vida própria... Voltei a sorrir... e creio, que teria na cara o tal ar estúpido de quem está de bem com a vida e com o mundo... pedi um café duplo, paguei e saí.

A chuva estava agora mais forte mas continuei de mãos nos bolsos impávida, serena como se nada fosse... Abri a porta, já estava acordado e beijo-me agradecendo silenciosamente o café que lhe trazia.

Permanecemos mais um tempo na cama observando-nos mutuamente... Ontem tinha chorado com medo de te perder, hoje já nada sentia para além da sua presença...

Beijámo-nos uma e outra vez, fizemos amor e pensei: "será a última vez!"...

Tomou banho como é habito e eu, como também é usual não!

Falámos acerca... e também...

Almoçamos, não recordo o quê!

Podíamos ter ficado ali sempre.

Podíamos apenas ficar numa espécie de semi-abraço a ler um dos livros que qualquer um de nós anda a ler...

Mas não.

Adeus, tenho coisas para fazer, sabes como é!

Adeus...

Não houve dia a seguir!

Xavier, já agora, não me leve a mal o desabafo mas, se pudesse: Não! Não voltaria ao trabalho!

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Vivências... 06


"Sinto um conflito interno e nem sempre estou em paz com ele..."
A Sónia sente-se nessa espiral de dor faz tempo...
Não sabe se consegue viver fora das 4 paredes de uma cela e, ainda hoje sem querer chama o seu quarto na residência de "cela"... ri logo de seguida mas continua nervoso...
Falámos acerca do amor e o que é a liberdade e hoje, foi a minha vez de "dar" uma "lição", quando a Sónia diz:
- "É triste quando temos medo de viver não é? Acha que isso faz de mim uma pessoa menor?"
- Não Sónia, não faz de si pessoa menor... mas faz de si uma pequena cobarde... a segurança de uma cela é de facto um lugar que num primeiro momento parece simpático mas, quando espreitamos pelo meio das grades a vida lá fora não lhe parece muito maior?
- "Pois parece e quero muito vivê-la..."
- É só preciso dar o primeiro passo... o resto garanto-lhe, que vem sem esforço, logo de seguida...

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Vivências 05...



"Não queria que ele fosse embora... Se for Dra. não sei se aguento!"


O longo periodo em que me olhou nos olhos sem desviar o olhar, não me perturbou, não me ameaçou, nem me deixou cosntrangida... Mas a cada milesimo de segundo sentia que o controlo facial a desvanecer-se, a transpiração das mãos a aumentar e os olhos num crescendo...


Ravel entrou em cena e aquilo que terá começado como uma pequena manifestação de humor liquido peuniforme e repetitiva, teve um crescendo progressivo e creio que, estaria prestes a acabar em mi maior, não fora o ardiloso bocejar e creio que não o conseguiria ter enganado...


"Se ainda agora o encontrei, porque raio é que tem de partir e ir para tão longe..."


O Duarte chorava em larghissimo pranto e as unicas palavras que conseguia-a pronunciar a dada altura eram: "Não quero, quero mesmo!"


E como eu no meio da torrente compreendia aquela mágoa, aquela aflição, aquele imenso pesar...


"Acalme-se - pedi-lhe passado um pouco - não podemos prender as pessoas. Elas são donas de si como nós, somos senhores de nós e do nosso destino. Aliás quanto mais as prendemos, mais a perdemos... Prepare-se para o inevitável, para a dor, para o vazio... Disse-lhe tudo o que sempre quis? Lutou para que ficasse? Então está na altura de relaxar os musculos da mão e largar, deixar livre, enfim, ceder..."


"Você não percebe... não pode compreender, eu gosto tanto dele, estivemos separados tanto tempo e este reencontro agora soube a todos os Invernos, todos os Verões que não passamos juntos, todas as palavras que não partilhamos, todos os beijos e abraços que nunca demos e agora... perde-lo assim desta forma... então porquê este reencontro, para quê?"


Ele não sabia o quanto bem eu o compreendia... nesse dia também não ficou a perceber...


"Tem razão, não sei o que sente... Não sou sou você e não vivi essa relação... Não significa que não tenha razão em tudo o que lhe disse... A cicatriz cicatrizará... e você seguirá em frente."


Menti-lhe obviamente... este é o obvio tipo de cicatriz que não o é! É uma úlcera que sempre teimará em não fechar e que, não impedindo a vida, torna-a mais dificil, menos suportável... mas a palavras ressoam de novo: tem de largar, tem de ser... se voltar, é porque será seu...


A chaga mantem apenas uma coisa viva em nós: a noção de que se sentimos dor, estamos certamente vivos... podemos é não compreender que tipo de vida é essa...


O Duarte tem 33 anos e esteve durante 26 anos separado daquele que é um grande amor seu: o seu pai pelas razões menos obvias, o pai esteve anos a fazer trabalho humanitário no estranjeiro e voltou há coisa de 1 ano... Irá partir hoje para a Mauritânia e o Manuel não pode ir porque não está bem mas, não quer também perder aquele homem de quem durante tanto tempo nunca conheceu sequer cheiro...


É dificil perder cheiros, sobretudo quando estão aliados ao Amor...

É dificil perder...

Mas há que largar, se voltar terá de voltar porque o Duarte é mais importante do que qualquer missão, do que qualquer ponderação interna... de que isto ou aquilo é o mais certo!
Se fores o seu grande Amor, como tu é sentes, então Duarte, nada temas: Voltará! Voltará sim! Anseio é que não seja depois, tarde demais...

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Vivências... 04


O Gonçalo tem 1,98 centimetros de um sorriso característico de quem nunca o fez de facto, com intenção mas apenas porque o boca e a medicação assim o ditaram.
Nunca houve uma ponta de sentimento possante. Hoje, contra tudo o que sempre lhe conhecemos: chorou...
Pela primeira vez, qualquer um de nós e dos seus colegas anteviu-lhe um sentimento mais arreigado e menos medicamente perturbado... Hoje tornou-se uma qualquer espécie de Homem: sentiu... aliás, ressentiu-se.
Hoje, o Gonçalo, mudou-se.
Foi para um novo Projecto que lhe irá dar novos "utensílios" profissionais e práticos para amanhã, quando os envelhecidos pais já não estiverem por perto, ele poder fazer coisas tão simples como: as compras do mês, aliás, ter dinheiro para as fazer.
Aqui aprendeu a gerir o dinheiro, a fazer as ditas compras, a comer até, menos doces e a fazer um sem número de coisas que achamos tão normais... saber tomar a medicação, fazer diariamente a higiene, a ter horários, a respeitar regras...
E depois aprendeu, tal como nós o inesperado: a ter saudade. A compreender o peso que é ter-se no peito essa saudade e a sentir falta de certas pessoas... A apreciar o conceito e acima de tudo o sentimento puro de amar alguns dos colegas sem qualquer tipo de interesse... A sentir prazer nas conversas do dia-a-dia, das preocupações que passou a sentir com os colegas e que, para seu espanto os colegas tinham com ele...
O Gonçalo começou por fim, a fazer aquilo que muitos de nós ou nunca o fizemos ou já o esquecemos de fazer: a experimentar, a provar, a saborear a vida e o que de bom por vezes, o ser humano na sua vertente mais surpreendente, nos trás a essa vida.
O Gonçalo hoje chora porque tem o receio de que ao sair daqui, daquilo que ele tão carinhosamente apelida de "ninho", perca todos esses "ganhos".
Ainda não compreende que esses ganhos estão nele, permaneceram nele independentemente da sua saída... São, desde já, ele.
"- Vou ter saudades vossas e sei que isso é bom, porque significa que me ensinaram a gostar de vocês e eu aprendi a sentir isso. Mas não compreendo então esta dor que sinto no peito sempre que acordo e penso em me ir embora. Sei que vou para melhor, as doutoras dizem que sim e eu acredito mas, tenho pouca vontade de partir e muita vontade de chorar..."
Na verdade, ele foi-se embora há coisa de uma hora e tal atrás, só ele e os colegas choraram na despedida...
Na verdade, a Nádia que era para estar de férias hoje, adiou a partida para o ver e eu, farei a hora de almoço saindo ansiosamente daqui, a Rosa desapareceu e portanto...
Na verdade também nós estamos a escolher um sitio longe de tudo e todos para fazermos a "nossa" saudade... e a chorarmos sem vergonha... já que aqui, temos de ser "animais de sangue frio" e perdermos um pouco da nossa humanidade (?!)
Na verdade, o que não entendemos, uns e outros, pelo menos na partida efectiva do Gonçalo é que, ele de facto não partiu, permanece apenas de uma outra forma em nós. Não é uma partida é apenas um género de "espera" para todos conseguirmos ver as coisas noutros prismas e darmos tempo ao outro para crescer... e quando ele voltar sabemos que regressa mais maduro e certamente, abrangerá uma visão mais "mundo" do mundo...
Esperemos que alguns de nós, tenham essa capacidade de abrangência e acima de tudo, que relembremos não só quem nos ama mas também a saborear a vida sem deixarmos que mais nada externo (e que não podemos resolver) nos tolde a possibilidade e o dever de sermos de facto, felizes...
Para nós (técnicos) o chegar ao fim de um dia destes implica o retorno a uma Casa em que a única coisa que queremos muito é o podermos abraçar a pessoa amada e ali ficarmos, o tempo que for necessário em silêncio.
Mas a realidade é que:
Para a maioria de nós (técnicos) o chegar ao fim de um dia destes implica, invariavelmente, chegarmos a casa e a estarmos ainda mais sós...
Boa sorte a ti Gonçalo!


Blog Design by ThunderDrum. Based on a Blogger Template by Isnaini Dot Com and Gold Mining Companies. Powered by Blogger