
O teu cheiro como disseste e muito bem, um sábado destes, nunca se confundiu com o meu,
nunca se partilhou com o meu, nunca o cheirámos e, quem não soubesse diria que
teríamos apenas cheiro de perfume... fomos amantes numa época perdida, num tempo
parado só para nós, e parecia o reino, tinha, todo ele, adormecido.
Tinhamos, no entanto, risos semelhantes, livros partilhados e um sexo que ocorria,
na maioria das vezes de forma prazenteira, fluída e despreocupada, nunca apaixonada (já sei!)
mas com ternura, aquela que se espera dos amigos que se partilham e se vão partilhando,
inevitavelmente, uma vida inteira...
Chovia naquele sábado e nada faria supôr que nos levantássemos naquele ninho por nós
formado. Rimos quando afirmámos ao mesmo tempo: "Hoje faz-se dieta!". Dormiu-se na
forma esperada: em concha, enroscando maquinalmente o nosso corpo com o do outro,
e sempre que por vezes algo nos fazia acordar, ficavamos longos minutos a olhar-nos,
sem nunca perguntarmos: "O que se passa? Porquê?..." Depois falávamos do banal:
de como nos dava gozo ouvir os ventos fortes e a chuva brutal nas vidraças do tamanho de
paredes... Falávamos do Mundo: da política, das estatísticas, dos programas que viamos
do NG... Por fim, falávamos do casual: dos nossos amigos, dos últimos que viste e das
novidades que te contaram, dos que comigo se cruzaram e daquilo que rimos...
Chegámos à conclusão que, estavam todos "correctamente" casados, com muita filharada,
muita dívida e dor de cabeça... e que, não obstante, tal como nós, sentiam uma imensa
saudade de um tempo que hoje, só nós, é que ainda sentimos. Claro que fizemos o nosso
papel social e dissemos: "Oh como te compreendo!", não revelámos nada e, à noite, só os
nossos olhos consentiam essa sensação silenciada...
Queria muito nesse dia levantar-me... tu não! Queria muito ver o orvalho nas flores... tu não!
Então, enquanto lias, fui à varanda, estava de calções e uma t-shirt tua, descalça e, durante
minutos, o vento e a chuva bateram-me fortemente na cara e, o mar, lá ao fundo estava revolto.
Bateste na vidraça, pediste para eu voltar para dentro porque iria, certamente, apanhar uma
constipação, ri-me, disse-te que te amava muito e tu, ternamente, abriste a portada,
comigo fria e molhada, apertaste-me fortemente, quase que a chorar muito baixinho
disseste: "Eu também... tanto!"
Parou de chover entretanto, no segundo que se prolongou aquele abraço e, inesperadamente,
um sol vibrante e quente surgiu no horizonte aquecendo, de imediato, a casa. "Bom, parece que
ganhaste, vamos lá então a essa praia... Já sei, eu levo o livro, tu levas a prancha, eu levo a
paciência e tu levas... as toalhas???" - "Sim, é isso!!!" respondi-te, e de imediato comecei a
despir-me para colocar o bikini...
Tu fazias nudismo e, confesso, ainda bem, adorava olhar o teu corpo nu, ficava horas a contar
os teus sinais, a acariciar-te a pele bronzeada, a pentear o teu longo cabelo... Deitei-me um
pouco contigo na mesma toalha (a tal king size) que tu odiavas, despi-me também e, enquanto
lias, fazias-me festas ao longo das minhas mãos e chamavas-me lagarto, deitava-me em cima
do teu peito e dormitava descansadamente. Dormiste a dada altura também, com a cabeça
pacificamente poisada sobre o livro, tirei-to da cabeça e ajeitei-a. Abriste levemente um olho,
sorriste e disseste: "Obrigada... por tudo!"
Peguei na minha prancha e fui para o mar, havia possivelmente mais dois ou três surfistas,
um pouco mais longe, de resto a água, tal como a praia estavam desertas. Apanhei três,
quatro, cinco ondas e o mar estava espantosamente calmo. Não sei o que sucedeu, juro-te, mas
aquela última onda vinha numa formação perfeita, perfeita demais para se perder, apanhei-a
bem, cortei bem todo o tubo e, ao meio, sei que olhei para a praia e tu continuavas a dormir,
creio que terá sido ai que me desequilibrei porque a ultima coisa de que tenho recordação, é
da brutalidade da onda que, a cada metro, me atirava mais fundo, olhava para cima e só via
espuma, bolhas e os raios de luz perfurando todo aquele grande azul...
Tentei, com todas as forças nadar em direcção à superfície... ainda senti alguém mergulhar,
ainda senti a areia da praia mas, acima de tudo, naquele último momento, senti por fim, o teu
cheiro e julgo que foi uma solitária lágrima tua que me percorreu o lábio inferior.
Continuo a amar-te a ti e à tua "prisão"...
Continuo a amar o mar e a sua "liberdade"...
Continuo aqui... Para bem e para o mal!