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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Imaginário XLIII - Imaginário?

A - Olha...olha! Bons olhos te vejam!!

(tradução: dassss, que é que estás aqui a fazer??? Encontros inesperados, twilight zone moment)

B - Epá... estava longe... bom dia! Por aqui?

(tradução: Wtf? Agora já não dá pra virar costas. sorrir, sorrir, vá lá sorri.)

A - É verdade! E tu? Por aqui??

(tradução: Olha o meu ar "surpreendido"... eu com tanta pressa, espero que não comecemos com conversas da treta.)

B - Pois pá, diz que quem é vivo sempre aparece, não é verdade?

(tradução: 5 minutinhos de conversa deve chegar, espero. Umas quantas redundâncias e passa depressa.)

A - Pois é, pois é... Epá estás na mesma!

(tradução: Fogo, já te viste bem ao espelho?)

B - Na... não digas isso: uns quilitos a mais, uns brancos já bem enraizados... o tempo passa por aqui. Mas olha que tu... ninguém diria que passaram quê? ... 15 anos?

(tradução: Mas não tens olhos na cara? Engordei à brava! Só podes estar a gozar...)

A - Não mais, mais... mas olha que por aqui o caruncho também já atacou. Então e conta lá as novidades! Tens miúdos? Os teus pais? Os teus avós ainda são vivos? Os teus irmãos, tios... e o resto do pessoal?

(tradução: Afinal vai ser rápido, já estamos na fase de perguntar pelos adjacentes. Ufffffffff)


B - Os meus miúdos já são graúdos, ela não quis estudar mas instalou-se bem num negócio de artesanato, é uma artista nata, ele seguiu engenharia e lá anda com a cabeça enfiada nos livros, a avó já lá está, o avô aguenta-se, obrigada. De resto tudo bem, pais tios, irmãos, sobrinhos... E os teus?

(tradução: Deves ter muito que ver com isso, deves. Quando te liguei a dar as boas novas nem respondeste à mensagem que te deixei no gravador de voz, sim, porque não te dignaste a atender!)

A - Eu fui fazendo montes de coisas, nunca assentei.

(tradução: Epá, não me apatece nada mesmo nada prolongar este sofrimento...)

B - Ahh, pois, compreendo. E fazes o quê agora?

(tradução: Ya, a vida deve ter-te corrido mesmo bem, ya, "nunca assentei"... boa desculpa para quem não quer dizer que ninguém te quis, essa é que é essa. )

A - Nada. Quero dizer, nada de importante. E tu?

(tradução: Deves estar à espera, deves. Pois se não dizes eu também não digo.)

B - Olha, o mesmo!

(tradução: Bem, parece que vamos começar a tocar a mesma tecla.)

A - Pois é, pois é... mais de 15 anos... o tempo passa caramba!

(tradução: O tempo passa, estes 5 minutinhos estão a parecer uma eternidade, e se fôssemos à nossa vidinha?)

B - É verdade, é verdade, é mesmo.

(tradução: Grande seca. Mais um minutinho da praxe e vou.)

A - Estou a adorar falar contigo. Vamos ali à espalanada aproveitar o sol e pôr a conversa em dia?

(tradução: Chegou a hora de nos despedirmos, não? Já fizemos a conversa da treta e chega, certo?)

B - Adorava, adorava mas fica para outra altura. Preciso mesmo de ir.

(tradução: uffff, estava a ver que tinha que ser eu a tomar a iniciativa!)

A - Tudo bem, claro! Eu também estou com pressa. Xiii, dois dedos de conversa e as horas que já são!! Vou mesmo.

(tradução: Finalmente falamos a mesma linguagem!)

B - Realmente...! O tempo passa mesmo depressa. Bem, então a gente vê-se?

(tradução: "Vê-se" assim looooonge e nunca mais, certo?)

A - Claro! Voltamos a cruzar-nos por aqui? Venho aqui regularmente.

(tradução: É que vai ser já a seguir. Só mesmo se esbarrarmos outra vez.)

B - Oh, então encontramo-nos certamente, passo aqui a vida...

(tradução: Quer dizer que nuuunca mais?? YES!)

(Despedidas)

A e B - Até à próxima, adorei encontrar-te!

(Então até nunca mais!!)


sábado, 10 de outubro de 2009

Imaginário XLII

Rufam os tambores.

O trapezista está tenso. Quanto mais salta mais confiança tem bem como mais certeza e consciência da perigosidade do salto.

Rufam tambores.

O trapezista olha, mira, avalia, sorri de nervos, sorri de felicidade - ele gosta de saltar.

Rufam tambores, não pode ali ficar para sempre no alto a segurar o trapézio. Tem que saltar, só assim tudo sai do suspenso e volta ao normal. É sua responsabilidade terminar: a sua apneia, a do público.

E se...? E se este é o último? E se for o último? E se... E se eu não pensar e fizer o que sinto e como sinto? E se a rede falha? E se a mão escorrega? E se tudo corre bem e termina como sempre num ruído de palmas entusiastas que lembra o mar agitado de ondas a bater nas rochas ... E se eu perder o medo e for em frente?


Quem no público olhava estarrecido o trapezista não imaginava o medo que ele tinha da altura, de cair, de escorregar, do balancé do trapézio. Via aquela figura imponente no alto, corajosa que fazia parecer fácil o malabarismo corporal no ferro balouçante. Via aquela figura segura sem medo que inspirava.

E ao som de um prolongado "ahhhhh" do colectivo extasiado o trapezista saltou e balouçou e fez o seu número sem nunca ninguém perceber mesmo sem ele esconder o medo que tinha de desapontar o público.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Imaginário XLI*

* Fora d'horas, fora de data... enfim, fora de tudo!



Esta é a história de um grão:

Era uma vez um grão de cereal que conseguiu fugir da saca na hora de ser despejado na mó de baixo.
O grão fugiu, fugiu, correu, correu, fugiu, fugiu, correu, correu e conseguiu chegar à mó de cima. Estava já tão longe que feliz da vida já nem se lembrava dos outros grãozinhos seus amigos e irmãos que estavam a ser esmigalhadinhos pela mó de cima, aquela onde ele estava tão são e salvo - pensava ele.

Basófias como era só lhe faltava uma coisa: outros grãos para ver a sua glória, a glória de estar na mó de cima. E enquanto por ali andava a ver se tinha espectadores nem viu um passarinho que esfomeado, truca!: abre o bico e lá se foi o grãozinho sem ter tempo de nem ai nem ui.

sábado, 2 de maio de 2009

Imaginário XL

Memórias de uma semana de cão*

(Dog speaking here*)

Dia 1 (5ª feira 9 de Abril): Ói??, a minha dona a passear-me a esta hora da manhã? Isto não é normal! Que fixe!
Hmmm, nunca tinha reparado no cheirinho que estas flores emanam logo pela manhã, que boa ideia dona, que fixe, que fixe, és a melhor dona do mundo!

Dona? Então vamos para casa outra vez? Ah, percebi, vais beber cafezinho. Hmm, está bem, vamos lá, mas olha que estou ansioso de ir para casa da avó que eu e o Ramika ontem ficámos a meio de um jogo muito giro!

Dona...? Dona?? DONA!!! Olha D. dona, vou ficar aqui a gritar até me ouvires, ouviste? Esta brincadeira não é gira, nada gira, nada nada!
Ou então.. será que não é brincadeira? Dona...! Esqueceste-te de mim? Dooooooooooonaaaaaaaaaaaaaaa!!!

Hmmmm, porque é que ela... hei! Hei!! Anda cá! Destranca a porta! Consegues ouvir-me? Anda cá, onde é que te enfiaste? Vou ficar aqui a chamar por ti até me ouvires!


(Depois de almoço...)
Dona.. onde é que vais agora? Não me digas que vais outra vez sair. E eu? Não tenho direito? Ai é? Vou entrar aqui nesta dispensa e procurar uma ferramenta para conseguir abrir a porta. Eu sei onde o dono guarda as coisas, eu vejo.. Ah pois é, vocês pensam que eu estou a dormir sossegadinho mas eu vejo tudo!

Ei... EI! SOCORRO! A porta fechou-se, tirem-me daqui, tirem-me daqui, tenho medo do escuro, socorro!

»Mete-se o fim-de-semana da Páscoa»

Dia 2 (Domingo de Páscoa): Olha... onde será que vamos? Neste carrito? Eles vão todos aperaltados, deve ser coisa importante deve.
Ai dona, esse perfume cheira muito, prefiro quando não pões nada, cheiras melhor, a sério. Mas eu gosto de ti na mesma. És uma dona muito linda, até me fizeste um corte de cabelo giríssimo e depois deste-me um banho que eu detesto mas eu sei que é para meu bem, eu sei, mas detesto! Detesto, detesto, detesto!

Ó donos.. onde é que vocês vão? Quem é este que eu não gosto nada porque nunca me faz festinhas? Que ... que sítio é este? Ei!! Ei, estão a ouvir? Não me deixem aqui fechado. Vá lá... levem-me com vocês...
Ai é? Não me ligam? Não me ouvem? Vou puxar por estas coisas aqui de lado, vocês põe sempre isto e qundo saem do carro tiram, por isso se eu tirar devo sair daqui, não é?

Bolas, estou farto de roer isto e o carro não se abre.

Ei, alguém me ouve? Socorro! Quero ir ter com os meus donos! Quero ir fazer xixi! Ei!!

Ninguém me ouve, é melhor roer mais, pode ser que consiga sair mais depressa.

Olha..., olha são eles! Boa, já não preciso roer mais, já posso estar aqui sossegadinho que eles estão a chegar.

Donos!! YES! Que fixe, chegaram, vocês ouviram-me! Não precisei roer aquilo tudo até ao fim!
Errrr... mas.. mas... porque é que estão a ralhar comigo? Eu pensava que se saía daqui se tirássemos isso.

Dia 3 (2ª feira 13 de Abril): Não sei porquê mas hoje já não tenho a casa toda para mim.
Mas como raio vou eu entreter-me? A piada estava em estar à porta de casa a gritar para a minha namorada me ouvir. Agora como é que ela me vai ouvir? Vou ter que gritar ainda mais alto. Estes meus donos não percebem nada.

Espera lá, porque é que ela virou a toalha para cima da mesa. Ah... estou a ver, deixa-me aqui a falar para o boneco, vai embora e ainda me esconde alguma coisa boa.
Isso é que era, não me chamassse eu Pootchie Nunes.Vou já ver o que é que está ali em cima da mesa.
Ups... ai ai ai... ela vai aborrecer-se. O cinzeiro. A caixa do pão. Opá... vai achar que sou um trapalhão. Quando ela chegar a 1ª coisa que vou dizer é que foi sem querer!

Olha, veio a casa comer. Acho que não está muito aborrecida, felizmente! É que foi mesmo sem querer. Ela é tão compreensiva... Boa! De tarde vou ajudá-la. Vou ver se consigo tratar de outras coisas cá em casa, como ... o lixo!

Dia 4: Esta dona... um cão a ajudar como pode e ela dificulta tudo. Tentei dizer para não perder tempo com o lixo que eu levava mas ela prefere assim, tudo bem. Vou ver o que posso fazer com estas caixas de cartão.

Dia 5: Hoje estou cansadito. Desculpa lá dona mas não te consigo ajudar em nada! Vou ficar aqui a descansar que chamar tanto por ti cansa, parece que não mas cansa. Já estou rouco!

Dia 6: Hoje também estou cansadito. Porque é que ela fecha a porta da cozinha? Deve achar que é muito engraçado ficar aqui fechado, deve. Aqui não tenho nada para fazer!
Vou ali fora. Caraças, como raio é que isto se abre? Eles põem a mão, puxam e.. já está ! Oh yeah! Afinal abrir portas é fácil, como é que não tentei isto antes? Que delícia, vou ali para ao pé da porta dizer a todos que estou crescido e já sei abrir portas!

Dia 7: Olha, ela fechou a porta outra vez, deve ter-se esquecido que já aprendi a abrir.Ou então é um jogo! Que giro, é isso, é um jogo!
Este jogo tem regras diferentes. Assim não vale, dona! Fizeste batota, trancáste a porta, assim não vale, esta brincadeira já não é gira!
Doooooooooooooonaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! (Ai que já estou a ficar cansadito. Se for bem a ver já não sou propriamente novo. Mas esta dona acha que sou um jovenzinho, é? Já nem consigo ouvir a minha voz!)

»Mete-se o fim-de-semana«

Dia 8 (2ª feira 20 de Abril): Óh dona, donaaa??!! Mas isto agora é todos os dias? Então agora fico aqui neste espacinho minúsculo que nem dá para me coçar, aqui sozinho à tua espera? Se isto é gostar de mim vou ali e já venho.
Já que não me ligas vou beber qualquer coisa, estou com sede.
Vou fazer sumo. Ouviste dona? Vou fazer s-u-m-i-n-h-o!

(Ouço a chave da dona na porta. AI como lhe vou dizer que correu mal?)

Sabes dona, sabes, sabes? Sabes? Dooona... Ai que nem imaginas, fez tanto barulho, isto é pesado, eu não sabia, ai que me assustei tanto dona... E agora... ainda tentei limpar isto tudo mas não encontro os panos. Ó dona... desculpa. Não, não. Não me cortei nem nada e o sumo assim é tão doce, blergh, não gostei, mas... deeeeescuuulpaaaa, não queria fazer isto. Desculpa sim? Desculpa... Desculpa, desculpa.
Eu ajudo-te a limpar... dona?? Banheira? Nãããão! Tu sabes que eu detesto! Ainda por cima a frio? Fogo! Estás mesmo aborrecida, isto é tortura, há leis dos direitos dos animais! Vou fazer queixa! SOCORRO!!

Uff, foi rápido. Eu ajudo-te a limpar, sim? Vá lá, deixa-me ajudar, deixa!

Olha que lindo que ficou! Adoro-te dooona!

E agora de tarde vou preparar um leitinho para o dono para quando ele chegar ver que me portei bem.
Ups. Porque é que isto está a esguichar por todos os lados...???





*Versão da dona neste post: Memórias de uma semana de cão (Versão da dona) [http://historiascommemoria.blogspot.com/]

terça-feira, 28 de abril de 2009

Imaginário XXXIX - 2ª parte

[Continuação daqui]

... já tão longínquas que nem memórias eram. Já não eram nada.

Mesmo que ela pudesse compreender o que se estava a passar dificilmente o deslumbramento a permitiria converter os flashes em palavras compreensíveis.

Do seu lado de fora os médicos lutavam para a estabilizar e reconheciam nos seus murmúrios moribundos e tentativas de gestos que o tempo dela passava mais depressa que o tempo deles, sabiam por experiência que em segundos não poderiam fazer nada.

Ela, por seu turno, fazia a viagem mais surpreendente da sua vida.

Ela não tinha a percepção que esta sua viagem por si mesma ao longo dos seus 48 anos de existência, onde ela se demorava em alguns episódios e podia até atrasar o tempo, duravam apenas uma fracção de segundo para os médicos.

Do exterior do quarto a filha fitava a máquina que fazia a mãe queixar-se, a máquina dos bip's, e via com os seus olhos o ritmo cardíaco da mãe decair a um ritmo irrecuperável.

Ela, no entanto, perdia-se nos pormenores da mais louca viagem da sua vida. A primeira coisa que queria fazer quando regressasse era contar a todos que a viagem não se faz no sentido ascendente mas no sentido descendente. A viajem é feita do fim para o início. E também que é possível interagir connosco. Enquanto decorria a viagem parecia ter capacidades inimaginadas, conseguia pensa, anotar mentalmente, conseguia reviver, conseguia tocar, falar, não havia limites.

Viajou daquele quarto de hospital cheio de bip's até ao acidente, por aí fora para trás e naquela altura todos os pequenos nadas de que foi feita a sua vida tiveram uma imensa importância. O mais simples gesto de ajeitar o cabelo e a gola da camisa todas as manhãs enquanto o elevador descia eram agora tão importantes como o nascimento da sua filha, como o seu casamento, como a morte dos seus pais e irmão. Tudo era importante. Agora via - sentia - que tudo era importante, mesmo o que parecia desprovido de qualquer sentido.

Viajou da sua idade adulta pela sua vida inteira até ao seu nascimento. No momento em que presenciava - via, sentia, ouvia, cheirava, pressentia, participava - o seu próprio nascimento sentiu uma força.

Os médicos já nada podiam fazer. Os sinais vitais atingiam os valores mínimos e sabiam que a vida se esvaía dela. Nada mais podiam fazer senão esperar o óbito.

Na sua derradeira viagem ela entrava na recta final, no último troço do último percurso da sua vida.
Assim que ela se refugiou naquele ventre que lhe oferecia protecção o seu óbito foi declarado.

sábado, 18 de abril de 2009

Imaginário XXXIX - 1ª parte

Não queria que o último som nos seus ouvidos fosse aquele bip irregular que lhe ia lembrando constantemente que em breve estaria morta. Não, queria tanto que aquele bip fosse musical, um som alegre, um chilrear, qualquer coisa em vez daquele som tão desprovido de vida que foi escolhido para traduzir precisamente os seus sinais vitais.
Agora, ali deitada naquela cama impessoal onde nem imaginava quantas pessoas teriam pensado o mesmo que ela, concluía que era perfeitamente aniquilador de qualquer esperança ouvir permanentemente um "Bip, bip, bip" que lhe dizia que cada vez estava mais perto da chegada a um ponto qualquer. Ou de saída de um outro ponto, em breve descobriria.

Já tinha lido sobre "near death experiences" e perguntava-se quando começaria a ver a tal luz brilhante e a ver a vida passar à frente como um filme em "fast-foward". Como seria rever tudo de uma só vez? Iria lembrar-se de alguma coisa que achava esquecida? O que seria essa coisa?
Pensou que não devia estar a bater bem: era suposto estar assustada ou curiosa? Se não fosse aquele maldito bip... Se não fosse estar com tubos por todo o lado e não conseguir dizer a ninguém diria que não há pior que partir de vez a ouvir aquilo. A curiosidade, essa, ficava cada vez maior e o medo cada vez mais para trás.

Começou a sentir-se mais calma. Lembrou-se de quando soube que estava gravemente doente e não sentiu raiva nem tristeza. Sentiu-se como que a ver um filme, faltam as pipocas, pensou.

Ouviu uma voz conhecida e tentou abrir os olhos mas não conseguiu. Sabia que era a sua filha que perguntava nesse momento ao médico o que se passava. Ela respondia à filha que estava tudo bem. O médico respondeu para ela se afastar, que tinha que sair dali.

Tolo do médico, não me ouve? Deixa estar aqui a minha filha. Saberei lá eu se a volto a ver? Sentiu-se a rir calma e docemente, um misto de riso e sorriso e queria tanto conseguir dizer apenas que estava tão bem.

Mas aqueles horríveis bip's, aquelas vozes desconhecidas que não a deixavam ouvir a filha e aqueles malditos tubos que só serviam para a impedir de comunicar com o que ainda era o seu mundo - Será que havia outro? Como será se houver? - e dizer pelo menos para viverem o melhor que puderem que a vida é tão curta para mágoas. Queria dizer que estava bem, talvez não o bem que queriam que estivesse, mas que estava melhor do que tinha estado: leve e sem dores. Queria dizer também que podiam substituir aquele bip que agora já não era enervante e parecia mais um som lá muito longe.
Sorriu ao "ouvir" todos quantos conhecia dizerem em coro que tinha mesmo mau-feitio. Sorriu fracções de segundo depois, num sorriso-réplica, por ver todos ali reunidos de novo.

As vozes dos médicos, o bip, o choro da filha eram agora memórias longínquas...


[Continua]

sábado, 7 de março de 2009

Imaginário XXXVIII

E ali estava ela no sítio onde ela achava que seria o meio da praça.

Feita louca esbracejava. Feita louca ali gritava para todos os que passavam. E gesticulava também. Gritava ria gracejava. Ria de si e dos outros. Ali estava ela só, cada vez mais só, a esbracejar no que ela achava ser o meio da praça, sempre convencida que cada vez mais gente tinha para a escutar.

Quem é ela? Perguntavam-se os olhares - quando se cruzavam - dos que por ali passavam e levavam com aquele cenário, mas apenas encolheres de ombros discretos e um ou outro mais ousado dedo girando junto da testa e rebolar de olhos eram dados como resposta à pergunta muda que todos se faziam.

Pobrezinha diziam uns. E olhando para trás com olhares de pena iam passando por ela sem saber muito bem o que lhe responder.
Outros havia que ali se demoravam e lhe perguntavam de modo mais curioso o que ela ali fazia, se era atenção que queria ou o que mais pretendia.

Todos quantos passavam percebiam, uns mais depressa que outros, que bem aquela cabeça não batia. Gritava ela do que julgava ser o meio da praça, sozinha falava e para si ria sempre a pensar que era para os outros que o fazia.
Na verdade, coisa que ela não compreendia, é que momentaneamente servia de entretenimento, fazia soltar uma gargalhada e qualquer criança se ria, mas com o passar do tempo, já não era entretenimento, pena era o que sentia quem por lá passava, coisa que ela não compreendia.

Na verdade aquela louca que no que ela achava ser o meio da praça para si falava gritava gesticulava foi-se tornando notícia e de vários sítios havia quem ali fosse do propósito só mesmo para a fotografia. E a louca feliz da vida cada vez mais se ria por achar que a audiência era boa, gostava dela nem reparava sequer nos perdidos de riso que dali saíam olhando uns para os outros com olhares que se interrogavam que seria que ela queria.

Que simpática - diziam uns - atenciosa até!
Pois é
- respondiam outros - parece, não parece? Atentem no modo como lhe falam, o que lhe sobra em energia falta-lhe em maneiras.
Oh pobrezita, uma louca é o que é. Pena devemos ter, coitadita da senhora, vai-se entretendo como pode na sua loucura, temos que ter paciência.

E o tempo lá passou com a louca no que julgava ser o meio da praça. Gesticulava, esbracejava, deixou a graça para escarnecer de quem por ali passava.

E na verdade era tão simples, tão depressa se resolveu. Bastou a televisão por lá aparecer. Médicos à distância faziam diagnósticos sobre o que julgavam ser uma qualquer demência degenerativa acelerada.
Na verdade era tão simples, tão depressa se resolveu. A louca precisava de atenção e assim que foi famosa como "A louca que ria gritava gesticulava no que achava ser o meio da praça", desapareceu.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Imaginário XXXVII

Vi-te a primeira vez de soslaio. Lembro-me perfeitamente porque nunca mais esqueci o teu olhar. Não sei se os teus olhos brilhavam tanto como me pareceu mas para mim o teu olhar ofuscava.

Estavas na paragem do autocarro como descobri que estavas todos os dias. Tu, o teu jornal e a tua pasta. Entraste placidamente, mostraste o passe como todos mas a tua calma confesso que era exasperante, a tua calma àquela hora da manhã, áquela hora em que apesar de cedo já todos estão stressados como se fosse o fim do dia.

E a tua calma exasperante chamou-me a atenção. Lembro-me de ter praguejado para dentro e maldito a tua serenidade e as coisas da vida são como são e se não fosse a tua calma hoje não te estaria a escrever esta carta.
Eu na minha pressa a levar o mundo à minha frente - como se por eu andar depressa o mundo girasse mais rápido. Porque andaria eu tão depressa? - e acabei por te levar à minha frente: a ti, à tua pasta, ao teu jornal. E acabei por te trazer para o meu mundo, sem querer, sem saber...

Eu e a minha pressa armámos uma confussão no autocarro e tu e a tua calma resolveram tudo num instante. Sei que corei violentamente, sei que corei a um ponto que pensei que a cabeça me ia rebentar. Não sei se corei pela confusão, se pelo teu olhar ter outra vez cruzado o meu e ter brilhado ainda mais. Talvez por ambos. Tu sabes, aquelas situações em que ficamos paralisados. E tu com a tua calma pegaste no teu jornal, na tua pasta e na minha e disseste que devolvias quando eu me sentasse e acalmasse, que tanto stress de manhã fazia mal.
Sentámo-nos juntos: eu, tu e a tua calma. E o resto do mundo desapareceu.
Entretanto saíste no teu destino. E eu estática a olhar. Saíste do autocarro mas percebi que não irias tão cedo sair da minha vida.

No dia seguinte não estavas lá no sítio do costume. Nem no outro. A ansiedade começou. No terceiro dia lá estavas. Sorriste e esse sorriso brilhava. Brilhava tanto que eu me sentia ofuscada.
Nesse dia ficámos juntos, não saíste na tua paragem. Eu não saí na minha. Ficámos juntos e quase sem falar fomos para minha casa.
O teu sorriso, a tua voz doce e calma fazia-me esquecer tudo o resto e era bom.
No dia seguinte voltaste. E no outro. Quando eu reparei não te tinhas mudado só para o meu mundo, tinhas-te tornado o meu mundo.

No último dia que te vi fizemos amor como nunca tínhamos feito - pelo menos eu nunca tinha feito, nem contigo nem com ninguém - até aí. Nunca me tinha entregue de uma forma tão intensa, tão descontraída, tão solta. Eu que já tinha tido umas quantas relações senti-me nesse dia de novo virgem. Sei que enquanto me apertavas nos teus braços durante aquela onda que nos sacudiu de alto a baixo eu sorria num sorriso que eu desconhecia em mim. E senti-te a minha pele. Senti coisas que não tinha sentido antes, nem mesmo contigo. E sorri.

No dia seguinte ao acordar sorri. E no trabalho sorri. Passei o dia a sorrir. E cheguei a casa. Tinhas ido embora e até hoje eu não sei porquê.

Não sei tão pouco quanto tempo passou desde que foste embora e me deixaste apenas o sorriso que ainda trago hoje. O mundo, que tinha desaparecido naquele dia no autocarro, ainda não apareceu. E tu, que te tornaste o meu mundo, desapareceste.

E eu que queria tanto perguntar-te como foi seres a minha pele...

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Imaginário XXXVI

Enquanto esperava pela sua vez na consulta, naquela sala de espera tão familiar, observava as pessoas.

Observava que as pessoas chegavam tímidas. Observava que as pessoas sussurravam um cumprimento cabisbaixas como se um simples “boa tarde” fosse perturbar a timidez de todos os outros.

Observava que poucos traziam algo para fazer – deviam ser os inexperientes ou talvez crédulos que daquela vez é que seria a vez que seriam atendidos na sua vez e via-se pelo seu olhar, que dava para distinguir uns de outros, que uns ficavam exasperados olhando para as horas e suspirando e que outros se sentavam expectantes.

Observava que alguns perdiam o olhar na jarra, talvez pensando quem se daria ao trabalho de substituir as flores: se a recepcionista se a empregada de limpeza. Observava que outros vagueavam o olhar pelos quadros que não compreendiam. Perguntava-se se gostariam da combinação de formas e cores, se apaziguaria as suas ânsias fosse qual fosse o motivo que lá levasse tanta gente de meios tão variados.

Distraía-se das suas observações e divagava nos pensamentos: que na morte e na doença não há classes. Todos sofrem de maleitas, todos morrem e depois de mortos todos são iguais e vão para o mesmo sítio. Irão mesmo? Dava por si a perder-se no olhar de cada pessoa que via, nos seus modos, nas suas vestes, no que cada um seria mesmo face ao que mostrava ser.
Inevitavelmente, em situações onde partilhava o espaço com desconhecidos – fosse nos transportes, fosse em seminários, fosse na praia, dava por si a reparar em tudo o que caracterizava as pessoas e a divagar sobre a sua teoria dos equilíbrios. Uma espécie de lei da física sociológica que leigamente ia desenvolvendo para si e que por muito que pensasse e observasse nunca chegava a conclusão nenhuma.

Via pessoas de ar mais cansado. Onde estariam as pessoas felizes? Para cada pessoa cansada haveria uma em igual grau mas em sentido inverso (quase como se pudesse aplicar um vector) descansada?

Via pessoas gordas. Haveria tantas pessoas gordas como magras?

Via pessoas de cabelos longos, outras carecas. Se uma é careca então seria porque alguém de cabelos longos teria ficado com a sua parte de cabelo.

Perguntava-se se também os outros pensavam estas teorias quase absurdas. Quantas pessoas estariam a desenvolver uma lei das compensações, como lhe chamava, semelhante à sua, baseada no princípio de que para cada compensação terá que haver uma descompensação?

Mergulhava os olhos na revista que trazia sempre consigo enquanto esperava a sua vez para que ninguém percebesse o que estaria a pensar, receava que os seus pensamentos pudessem ser lidos. Segundo a sua própria lei das compensações, para cada pessoa que não é capaz de usar o sexto sentido outra pessoa seria capaz de desenvolvê-lo, apurá-lo e (quase de modo receando de uma conspiração) usá-lo sem se esforçar para isso. Estaria ali alguém com alguma dessas capacidades telepáticas? Estaria ali alguém capaz de ouvir o que pensava?
Ao olhar de novo em volta os seus olhos fixaram-se em outros olhos que sim, poderiam muito bem estar a ouvir o que pensava. Se ao menos dessem um sinal…

Nada.

- Sr. Martins
- Eu?
- O Dr. diz que pode entrar.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Imaginário XXXV

Lembras-te das nossas conversas, aquelas longas conversa, tu sentavas-te numa ponta e eu noutra, eu com uns ideiais e tu com outros, eu com um modo de ver as coisas e tu com outro.

E foi assim que fomos crescendo, sempre lado a lado, sempre ali para o que desse e viesse.

Foi no meu ombro que choráste tantas vezes e eu no teu chorei outras tantas.

Não sei se ainda te lembras. Acredito que sim.

Lembro-me particularmente de uma noite, foste a minha casa - já eu tinha casado - , estávamos apenas nós. Perguntáste se eu era feliz.
Na altura perguntávas-me muito isso. Eu respondia genuinamente feliz que era feliz. E tu ficavas feliz por mim mas eu via o teu olhar triste.

Perguntava-te quando serias feliz. Tinhas sempre muitos projectos a alcançar antes de seres feliz. então eu reformulava a pergunta e perguntava quando é que nos teus planos encaixava a felicidade, mas tu respondias sempre o mesmo: que ainda tinhas que acabar o curso, depois fazer o mestrado, depois ir trabalhar nem tu sabias para onde - para um sítio qualquer, depois viria o doutoramento só depois casarias e casarias se desse, não era uma prioridade. Eu queria acreditar que esses eram os planos para a tua felicidade. Queria acreditar que serias feliz assim, com todos esses projectos a envolverem-te e comandar a tua vida.

Perguntávas-me se eu não me arrependia. Arrepender de quê? Respondia eu.

Lembro-me de te dizer na altura que parecíamos jovens de 20 e poucos anos mas que o tempo ia passar mais depressa do que pensávamos e que um dia ias olhar triste para as tuas fotografias, artigos publicados (sim, ias publicar imensos artigos em revistas da especialidade), calhamaços de livros temáticos nas prateleiras, especímenes únicos embalsamados e numa vitrine, irias ter mil histórias para contar e não irias ter ninguém que as ouvisse. O teu modo de vida não iria (temia eu) permitir que estabelecesses relações duradouras com ninguém.

Os anos entretanto passaram. Tanta coisa mudou na tua (minha . nossa) vida, tanta coisa permanece igual.

Encontramo-nos regularmente mas já não falamos de planos nem de sonhos, esses foram sonhos um dia, sonhos que se sonham uma vez numa época e que não podem ser depois os pesadelos do futuro.

E quando não se quer ter pesadelos no presente porque os sonhos do passado não se concretizaram no futuro, falamos apenas do estado actual das coisas, da crise, dos preços, das modas, dos outros, do hoje.

Jamais se fala do futuro - sabemos que o futuro é o que ele quiser ser e que apenas damos um ligeiro empurrão. Jamais se fala do passado. Aceita-se apenas o presente.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Imaginário XXXIV

Enquanto estavam todos na galhofa debaixo daquele túnel que servia de passagem a tanta gente o olhar dele cruzou-se com o de um velho que casualmente por lá passou.

Enquanto por lá passava, velho e de pernas cansadas, apoiado na sua bengala que há tantos anos lhe fazia companhia, o seu olhar cruzou-se com o de um jovem que lá estava.

Por um qualquer motivo aquele velho não desviava o olhar, um olhar que lhe parecia familiar, um olhar que parecia que ele próprio já teria visto vezes.

As forças faltavam-lhe cada vez mais com toda a emoção de estar ali. Ali, naquele lugar, àquela hora, de olhar fixo cruzado naquele jovem que sabia ele ter 21 anos. Que ele sabia ter sonhos e ambições, que ele sabia lutador.

O olhar do velho não o assustava. Sentia que, nunca o tendo visto na aldeia nem nunca tendo saído de lá, o velho o conhecia. Sentia mais que isso, sentia que havia um elo entre ele e o velho.

Não sabia o que havia de fazer. Tantos anos volvidos entre a sua saída e este regresso ao sítio onde já não conhecia ninguém encontrava-se agora ali, no mesmo sítio onde 60 anos antes falava com os seus amigos sobre a sua vontade de sair da terra e procurar a emoção lá fora.

Aquele velho parecia saber qualquer coisa sobre ele. Tinha vontade de ir-lhe falar. Imaginou que o abordaria perguntando se precisava de ajuda.

Viu o jovem dirigir-se a si. Fraquejou. Não tinha pensado nessa possibilidade. Não pensou no que poderia ser dito.

Saindo do grupo acercou-se do velho. Perguntou-lhe se se conheciam. Que o seu olhar lhe era familiar.

Sentiu o cheiro do jovem. Ouviu a sua voz. A voz que foi sua.

Temeu que o velho se sentisse mal. Perguntou-lhe se estava bem.

Sorriu para o jovem. Que estava tudo bem, que nunca lhe tinha estado melhor. Acrescentou que a vida dele ia chegar para muitos sonhos. Que fosse fiel a si mesmo, que não se esquecesse - de si - que quando não soubesse com quem contar que contasse - consigo.

Conhecêmo-nos?

Tu ainda não me conheces. Eu conheço-nos.

Perguntou se o velho estava bem. Que enigma era aquele, quem era ele.

O velho recuperou da emoção. Ia seguir caminho, tinha ainda uma longa jornada. Não havia enigma: bastava que o jovem todas as noites se olhasse olhos nos olhos ao espelho.


O velho seguiu a sua jornada, foi andando lentamente pelo túnel fora até o jovem, ainda petrificado, o perder de vista.

O jovem correu para casa. Olhou-se no espelho. Arrepiou-se sem saber se tinha sido verdade ou não. O primeiro objecto que seleccionou para a sua maleta foi um espelho de mão da mãe. Teria que ficar em cima de tudo para se olhar nos olhos sempre que precisasse.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Imaginário XXXIII

- Acho que ele endoidou de vez - conseguiu ela dizer entre soluços a quem falava ao telefone.

Ah... endoidei, ela nem sabe o que diz, não podia estar a pensar com mais clareza.

- Desculpa, não consigo conter, não consigo falar - era o que do outro lado se ouvia a custo, entre soluços e longos períodos de silêncio. E lá vinham mais soluços e mais silêncios a cada vez que do outro lado alguém dizia calma, vou aí ter contigo, vem ter comigo.

E ele ria, ria que nem um perdido como se alguém lhe tivesse contado a mais hilariante anedota. Conseguia até lembrar-se da história daquele inglês que tinha morrido de tanto rir a ver uma série de televisão e seria uma pena - pensou - se morresse assim, logo hoje. Seria no mínimo irónico, mas é assim que a vida é, irónica.

- Ele só pode ter enlouquecido - saía por entre mais um soluço - ele... ele vem aí...

E ele pegou no telefone e tomou conta da conversa. Que ele (aquele que estava do outro lado da linha) tinha que ir lá ter a casa. Ele (o que supostamente tinha endoidecido) queria falar com eles (ela e ele que estava ainda do outro lado).
- Vá lá, depacha-te, anda que eu não tenho tempo a perder - disse ao desligar sem dar hipótese de resposta.

E ria, ria que nem um doido enquanto cantarolava Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida, hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.
E ela chorava. Não conseguia controlar os soluços que lhe arrebatavam a respiração e a deixavam sem fôlego, cansada, estoirada e com uma ainda mais incontrolável vontade de chorar.

Enquanto ela se prostrava e balançava que nem uma louca lavada em lágrimas numa ladainha de choro irritante ele cantarolava, ria e ia fazendo as malas.

- Vá lá querida, não fiques assim. A sério!, pensa bem, pensa, esquece as penas, esquece tudo e pensa. Isto foi a melhor notícia que tive em anos. Que tivemos. Todos: os três. Vá, canta comigo, hoje é o primeiro dia do resto da minha vida...

E seguia a cantarolar num riso de felicidade que passava o limiar do infantil para o histérico.

- Como podes dizer isso - gritou ela tantas vezes até ficar rouca - como? E alternava o choro, a ladainha e os gritos que já nem se ouviam por não ter voz.

- Eu não endoideci, aliás, devo dizer-te que estou mais lúcido que nunca, louco andava eu feito zombie na vida à espera da morte. Vivo estou eu agora. E se rio é porque vivo.

Entretanto a campaínha toca. Ele vai abrir a porta enquanto lhe diz, carinhosamente, para ela se compôr e não ser dramática.

- Entra e senta-te, vê lá se me ajudas a compô-la que está para aí numa crise de choro que até parece que morreu alguém - e ditas as palavras, que ele próprio ao dizer ouvira, ria ainda mais e mais descontroladamente - Ai que morro de tanto rir - e ria ainda mais.

Ele (o que acabava de chegar) nem sabe por onde começar nem o que pensar. A casa sempre antes tão direitinha num reboliço. Roupas, papeis, livros pelo chão.

- Entra lá, não temos tempo a perder, não te mostro a casa porque sei que já a conheces mas antes que também tu me aches louco deixa-me dizer-te que não te vou matar nem nada que se pareça. Bebes alguma coisa? Um whisky? Cerveja? Chá? Acompanha-me num whisky velho, faz-me o jeitinho, afinal de contas já partilhámos outras coisas - e dito isto voltava a rir como se tivesse dito a piada mais hilariante do mundo. Ai que não posso rir tanto, ainda morro - e voltava a rir da mesma piada que não se cansava de fazer.

Ela soluçava no chão, já em soluços baixinhos, cansados, os olhos inchados, o rímel que esborratava a face, o desespero de quem já nem procurava um lenço para enxugar as lágrimas. Ele (o que acabava de entrar) baixou-se para a abraçar e nesse instante ele (o que ria) diz-lhe em tom sério e sem rir:

- Vou-me embora. (E dito isto ela rompia de novo em lágrimas exaustas, tantas que lhe ardiam os olhos e a cara, tantas lágrimas que já chorava em seco) Vou-me embora, sei de tudo. E o que interessa aqui é que se durante anos fui corno e até me importava mas sempre esperei que ela mo dissesse, hoje não me importo e até agradeço. Agradeço, sim. Sabes, numa questão de segundos tudo se tornou relativo. Com a aproximação da morte tudo se torna relativo, mas (sussurrou ao ouvido dele, o que acabava de chegar) cada um tem a sua hora e só nessa hora percebe a relatividade. E a minha chegou. E sinceramente? Não me importo. Não me importo e estou felicíssimo, creio que vou viver mais estes dias que me restam do que vivi os mais de 40 anos até aqui.
Estava preocupado com ela, sabes, recebeu mal a notícia. Creio que para ela tudo seria imutável: eu cá em casa, tu no hotel ou aqui ou onde quer que fosse e assim seria para sempre. Mas as coisas mudam. Não quero que ela fique só. Nem quero que ela tenha pena de mim, nem tu sequer.

Bebia mais um gole de whisky.

Não é pena que quero, quero que entendam que não ensandeci, apenas tomei consciência naquele minuto do que queria, e o que quero é sair daqui, desta vida - e nisto ria de novo. Sabes, isto entretanto torna-se quase ridículo, porque "vida" e "morte" tomam outros sentidos para mim agora, mas não para vocês. Vá lá, não me olhes com essa cara de espanto. Peço-te que cuides dela. Que venhas cá para casa. Podem vender esta e comprar a vossa, tanto me faz, desde que fiques com ela. Tu e eu somos os pilares da vida dela, eu sei, e por isso nunca me intrometi entre vocês, mesmo sendo o marido, do mesmo modo que - e ria de novo à gargalhada - nunca te meteste entre nós, se é que isso foi possível, nunca te meteste entre nós porque eu não te trouxe e porque não forçaste. Mas - e bebia mais um gole - isto tudo para te dizer que vens para cá. Hoje.

Beijando-a na testa com um imenso carinho saiu de casa a cantarolar hoje é o primeiro dia do resto da minha vida e já não a ouviu dizer sumidamente amparada nos braços do outro o amo-te, não te quero perder, não morras, não estou preparada para te perder para sempre que ela conseguiu dizer antes de desfalacer.

E saiu feliz porque finalmente ia viver nos poucos dias que lhe restavam de vida.

sábado, 29 de novembro de 2008

Excerto de um dia atípico da vida dos Thunder's

Bem sei que é sábado e dia de sushi, mas o tempo não dá para tudo e apesar de o fim-de-semana ser dos prolongados e apesar de ter o esboço de uma história (mais uma das minhas secas) na cabeça não vai dar para desenvolver.

Então falo daquilo que também são histórias mas das vividas a sério por nós, não das que invento.

Levantámo-nos a uma hora agradável para um sábado. Tínhamos umas compras muito simples para fazer (na verdade o que nos levava ao super seriam iogurtes para a avó). Tomámos o pequano almoço e saímos para deixar o Pootchie com ela.
Tive a "brilhante" ideia de me enfiar no Cascaishopping. Vá lá, à hora que chegámos ainda havia um lugarito no parque descoberto.

Compras de Natal. A maioria estão despachadas. De cada vez que saímos de um sítio o número de pessoas nos corredores parecia ter aumentado.

Continuo a achar "fantástico" as famílias enfiarem-se em peso no centro comercial ao fim-de-semana. Pai, mãe, avós que andam lentos à brava, carrinhos de bebés que ocupam os corredores inteiros e mais: pessoas que entram com os carrinhos de bebés dentro das loljas tornando a circulação extremamente difícil. Crianças que acabam por ficar rabujentas e pais que acabam por ficar sem saber o que lhes fazer quando seria tão simples dividirem-se entre si e um ficaria em casa enquanto outro iria fazer compras.

Há também as típicas pessoas que se esquecem com certeza que estão num local público e passeiam-se como se mais ninguém lá andasse. Param onde lhes apetece nem que isso signifique entupirem o corredor inteiro porque a avó tem uma malha nas meias e o neto não pára quieto e dali a pouco apanha não tarda e o bebé entretanto acordou e põe-se a chorar e o pai vai abanar o carrinho e a mãe não sabe onde está o telemóvel e a filha adolescente está ali com ar de quem mais lhe apetecia estar era com a amiga a ver páginas do Hi5 e o melhor é mesmo ficarem ali todos porque a tia finalmente estacionou e vai ali ter com eles se eles não esperam nunca mais se encontram.

Há aqueles espécimens que eu também gosto (sim, gosto, de ver longe) que têm o marido ou o filho ou a mulher ou quem seja no último lugar de uma fila de 50 pessoas para ir buscar um hamburguer mas já estão a reservar mesa para 10 pessoas que entretanto "limparam" pondo os 4 tabuleiros cheios de restos na mesa ao lado para quem vier a seguir que limpe. As outras que andem de tabuleiro na mão a procurar um sítio, azarito.

Ah, também gosto das senhoras na idade da parvalheira que a menopausa dá, aquelas que acham que como já pariram e já lhes secou a fertilidade são donas do mundo (malditas descompensações hormonais) que mesmo mostrando a senha para o bacalhau e mesmo pedindo educadamente para se desviarem porque a minha vez está a chegar olham como se eu tivesse acabado de sair da creche e ainda gozam. Se calhar devo mesmo, talvez elas não pedissem e se impusessem. Bem, pensando bem foi o que elas fizeram. Cascais? Tiazocas? Benzocas? Na.. de bem não tiveram nada a não ser a arrogância.

Bem, e agora vou arranjar o frango para o wok de amanhã e fazer a canjinha. Natal é quando o homem quer excepto nas grandes metrópoles em que Natal é dia 25 de Dezembro e já é muito bom.

Lamento pelas pessoas que vão fazer compras de Natal que não têm a mínima noção do que ele é.

Talvez seja por isso que eu detesto tanto o Natal.

Ahh! E por falar em detestar. Este ano não se vai fazer árvore, não vamos estar cá e não vamos ter a trabalheira, não nos apetece. Falava no entanto com um colega que dizia que no Natal não dispensava a árvore e o presépio. Achei de uma incongurência enorme.
O paganismo e o cristianismo ali juntos, lado a lado. Na minha opinião as pessoas deveriam escolher se querem festejar o solstíco de Inverno ou o nascimento de Cristo.
É que vejamos, são estas as pessoas que criticam em massa os outros (o critianismo deveria ser uma religião de aceitação e amor ao próximo, digo eu que sou agóstica), que se benzem perante ideias "do demo", que defendem as fogueiras onde se queimavam as bruxas e no fim ali está ele, o símbolo pagão a lembrar como foi que a "Igreja" se apoderou das crenças de todos e os forçou a amar a Cristo mesmo ao lado do símbolo do berço do menino Jesus.

Eu acho incoerente mas aceito que me digam que a árvore e o presépio sejam o símbolo máximo da união entre todos. São pontos de vista. Mas se a abertura é assim tão grande que não seja apenas em Dezembro, afinal Natal é quando o homem quer.

sábado, 22 de novembro de 2008

(A importância de) Sentir na pele

Lembrei-me há pouco que quando era miúda (e não serei eternamente uma miúda? ainda que uma miúda a encarquilhar, a descair e a esbranquiçar?) me perguntava muitas vezes o que veria o meu pai, que usava óculos permanentemente e sempre que lhe pegávamos nos óculos ele dizia rispidamente "dá-me cá isso que eu não vejo nada sem eles" como se algo de muito mau lhe pudesse acontecer, um tom de voz que era um misto de receio e de ordem.

O meu pai era o único adulto que não era velho que eu conhecia que usava óculos sempre e a toda a hora. Nem os adultos velhos os usavam 24/7 e nem os adultos velhos ficavam tão irritados se pegássemos nas "oculetas" deles.

O meu pai era o único que ficava todo abespinhado.

Um dia perguntei-lhe se ele ficava cego se não os tivesse. Na minha ideia pôr os óculos seria como acender uma luz e tirá-los seria como apagá-la. E por isso nunca ele poderia ficar sem eles, senão passava a ver tudo muito escuro.
Ele respondeu que não ficava cego mas que não via nada. E eu não percebi nada do que ele me disse. Mas ele era crescido e eu não e devia ser uma daquelas coisas que só os crescidos é que sabem.

Um dia, tinha eu 13 anos, comecei a usar óculos. Coisa pouca, mas precisava. E lá andava eu toda contente com os meus óculos novos. Ao início tudo parecia igual com a excepção de ter uns vidros à frente dos olhos.

Hoje, 20 anos depois, ao olhar para o relógio digital do quarto lembrei-me da pergunta que fiz ao meu pai teria eu os meus 4 ou 5 anos. Ia jurar que até ouvi a minha voz.

E lembrei-me de ele ter respondido que não ficava cego mas que não via nada.
Porque eu não sou cega e macacos me mordam se eu não via nada a não ser um esborratado colorido disforme.

sábado, 15 de novembro de 2008

Era uma vez um ancião

Mesmo mesmo no meio do universo havia um mundo. E mesmo mesmo mesmo no meio do mundo havia uma floresta. E mesmo mesmo no meio da floresta, mesmo mesmo lá no meio, havia uma pequena aldeia. Tão pequena que já só tinha um casebre, um poço e, mesmo mesmo no meio, um pelourinho.

Essa aldeia tão pequena tinha apenas um habitante, um ancião que ninguém sabe que idade tinha porque ninguém sabia que ele existia, assim como ninguém sabia que a aldeia existia.
E o ancião também não sabia porque a última vez que ele falara com alguém já tinha sido há tanto tempo que ele próprio não se lembrava.
Ele também já não tinha noção do tempo que passava, ele só sabia que a seguir à noite vinha o dia e a seguir ao dia vinha a noite e que a seguir ao Verão vinha o Outono e a seguir ao Inverno vinha a Primavera.

O ancião já não ansiava a vinda de ninguém.

Durante muito tempo, que ele não se lembra nem quando nem quanto foi, ele esperou alguém.

Mas agora, passado todo o tempo que passou, o que ele espera é que não venha ninguém. Assim como desejou em tempos ouvir uma voz deseja agora que nenhuma voz se oiça.

Se alguém por lá passasse (que não passa porque ninguém já quer ir aos lugares que faltam descobrir porque acham que estão todos descobertos) ia com certeza ter muita pena do ancião. E se alguém por lá passasse nunca ia compreender como é que o ancião podia ser assim tão rude.
Na verdade ninguém poderia compreender porque todos estão sempre tão habituados e dependentes de estar rodeados de tudo o que é supérfulo que não lhes caberia no entendimento que alguém possa viver assim (E ainda por cima ser feliz, que horror, como é possível!! - quase dá para a ouvir as exclamações), com se "assim" fosse de um modo deplorável.

Por isso o ancião apenas ansiava uma coisa. Poder viver tanto tempo quanto quer que fosse o tempo que lhe restava sem que ninguém ali aparecesse para lhe roubar a paz. Todos os dias abençoava ter sido mais um dia a sozinho (mas não "só", que estar só e estar sozinho são coisas bem diferentes). E todos os dias sentava-se no pelourinho antes de ir para o seu casebre e olhava o céu. E todos os dias pensava no que seria que estava no centro do universo.

sábado, 1 de novembro de 2008

Resumindo muito...

Um dia (e ninguém sabe explicar muito bem como apesar de haver inúmeras teorias) o Universo formou-se.

O Universo que ninguém sabe explicar muito bem o que é mas sabe-se intuitivamente - porque a palavra impõe respeito, tomara que o houvesse mesmo - que a sua vastidão vai além do que o próprio nome que lhe deram dá a entender.

O Universo formou-se, aquelas partículas todas criaram afinidades umas com as outras e resumindo a história, cá estamos nós, seres vivos e seres não vivos. Seres. Não somos mais que uma afinidade de partículas.

Resumindo muito outra vez, depois de toda a evolução (para os evolucionistas) ou de toda a criação (para os criacionistas) o homem (sim, com letra minúscula) - homens e mulheres - ganhou uma caracteristica: consciência do que o rodeia. Adjectivação. Tenha sido pelo ganho de superfície cerebral às custas de cada vez mais sulcos (evolucionistas) ou tenha sido graças a uma trinca na maçã (criacionistas) o certo é que o mundo que o rodeia começou por ser aproveitado. Depois observado. Depois esmiuçado. Depois esventrado. Hoje é escravizado.

O substracto que nos criou (seja por uma mutação na agregação de partículas - evolucionistas - ou porque da lama se fez a costela de Adão - criacionistas), que nos sustentou, que nos prendou com recursos, que fez do homem o Homem (desta vez com letra grande) foi, em dois escassos séculos de uma história tão mais vasta, avidamente esgotado.

Quando o homem saiu do seu núcleo reduzido, motivado seja pelo que quer que tenha sido (crescei e multiplicai-vos - criacionistas - ou procura de comida e paragens calmas onde fosse possível ter alimento e protecção - evolucionistas) ele conheceu novos locais. Fixou-se. Aprendeu as artes da defesa, da agricultura, do pastoreio. Iniciou a perigosa busca do saber. Perigosa porque há linhas que não se podem atravessar. Mas sempre e ao longo dos séculos o homem foi timidamente aproximando-se cada vez mais dessa linha.

O homem, achando que está cada vez mais próximo da sabedoria absoluta, auto-entitula-se "Homem", homem todo-poderoso, acima dos seres vivos e não vivos, acima de tudo, acima até do Universo.

A Humanidade, como ela gosta de se chamar a si mesma, não passa hoje de uma enorme organização trituradora onde de um lado coloca pedras, animais, árvores, água, pessoas e do outro obtém dinheiro, dinheiro e até mesmo dinheiro.
A palavra de ordem é seguir em frente sem olhar aos meios para atingir os fins. O que interessa é lá chegar.

Chegar? Onde? Será que alguma vez alguém parou para pensar onde se vai chegar?

O homem nasceu no seu berço, vagueou um pouco por todo o mundo, fixou-se aqui e ali onde para cada grupo havia melhores condições, prosperou, cresceu mais, onde havia pequenos núcleos passou a haver aldeias, organizou-se, dividiu tarefas, especializou-se, aumentou ainda mais, as aldeias deram lugar a vilas, a cidades, hoje em dia são metrópoles que mais parecem países, conquistam-se territórios, separam-se bens. Para quê?

Mais tarde ou mais cedo as grandes metrópoles esgotar-se-ão. Os escravos da era moderna que ainda permanecem nos campos a alimentar as cidades - quais vassalos a alimentar os nobres e reis - mas que ao invés da época medieval em que tinham protecção dos seus senhores estão hoje desprotegidos e inferiores em número, não conseguem já tirar das terras o sustento da suposta Humanidade.

As civilizações estão a entrar em declínio, vítimas de si mesmas.

Chegará o dia em que o colapso será inevitável. Mas ao invés de se dar em períodos longos em que a suposta Humanidade se pode adaptar, não. Desta vez não haverá adaptações. Seremos esmagados por nós mesmos, dizimados pela nossa desmesurada ambição.

E o pior é nunca chegarmos a saber exactamente o que ambicionávamos. Porque deus (deuses), a existirem, não aceitam homens no seu espaço.


Bem-vindos à época catastrófica do "format c:" global. Seja por castigo de Deus (criacionistas) seja por esgotamento dos recursos que nos sustentam (evolucionistas). Não vai sobrar ninguém para contar a história que nunca chegou a ser feita.

Um dia (e ninguém sabe explicar muito bem como apesar de haver inúmeras teorias) o Universo extinguir-se-á.
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Humanidade

do Lat. humanitate s. f.,

o conjunto dos homens;
o género humano;
natureza humana;
clemência;
benevolência;
amor do próximo;
(no pl. ) estudos clássicos.

(http://www.priberam.pt/)

sábado, 25 de outubro de 2008

Imaginariamente real

Há umas manhãs atrás, ao entrar no quintal, um brilho diferente chamou-me a atenção. Do meu lado direito havia qualquer coisa diferente. Podia ser a luz, podia ser o brilho ou podia não ser nada e ser uma mania minha - uma entre tantas e tão importante como outra mania qualquer de quem tem a mania que não tem manias.

Certo certo é que ainda não tinha acordado totalmente. Apesar de já ter passado uma hora desde que o despertador tinha tocado, todas as tarefas matinais rotineiras tinham tido uma precisão meramente maquinal, desde o levantar ao café e cigarro antes de sair de casa. Mas certo certo é que, como eu dizia, ainda não tinha acordado totalmente, coisa que não se devia fazer fora de casa - acordar totalmente - sabe-se lá o que aconteceu pelo caminho!

Mas, dizia eu - que mania de me perder entre pensamentos e acrescentar mais uns pormenores sem importância nenhuma, certo, certo é que ainda não tinha acordado totalmente e vai de ainda estar meia letárgica e achar que era uma patetice mas aquela luz estava diferente, a luz que me chegava pelo canto do olho, não a que me espreitava de frente por trás da esquina da casa.

Claro que me voltei para trás para perceber o que era e juro-vos que o que me salvou foi ter a tensão baixa, que quando dei de caras com ela fiquei logo acelerada e foram-se os restos de apatia que me sobravam da noite mal dormida.

Ao olhar para o sítio de onde vinha aquela luz em brilho fragmentado - perdoem-me a falta de eloquência mas não sei que outra expressão usar - não dou de caras como disse no parágrafo anterior - claro que vocês, bons leitores que são para mim, captaram a ideia na expressão utilizada - por nos ser a ambas fisicamente impossível, fisicamente em dois sentidos, o primeiro porque ela não tem cara e o segundo porque a ter estaria ao nivel da minha pube, mas deparo com o tenebroso, mais que tenebroso - sinistro!, cenário dela lá instalada, e oh! que bem instalada estava ela mesmo no centro daquela trama ardilosamente tecida. Lá estava a dita, velhaca instalada no covil, à espera.

O cenário, podem crer, era medonho. Na teia, enorme acreditem(!!), reluziam ainda as gotas de orvalho que resistiam estoicamente ao sol da manhã e mais firmemente ainda à sede da fera. Espalhadas ao acaso cascas de outrora viris moscas esvoaçantes estavam prisioneiras na teia e nem as sobreviventes se atreviam a reclamar os despojos porque ali estava ela, de olhar triunfante, a dona do covil, a senhora das oito patas. Ela viera, chegara e conquistara o território. Só não ria maleficamente porque as aranhas não riem, muito menos maleficamente, mas que lhe ia assentar muito bem um sorriso maquiavélico, lá isso ia, garanto-vos.

Pois foi nessa manhã que me tornei heroína aos meus próprios olhos - que não o sendo aos olhos de ninguém posso muito bem aos meus ser o que eu quiser e nesse dia asseguro-vos que me tornei fã de mim mesma.

Entrei em casa decidida dos passos a seguir. Tinha a estratégia bem definida mentalmente. O plano devia ser seguido ao pormenor. Não havia espaço para dúvidas ou falhas, a missão era arriscada mas tinha-me sido confiada, logo e justamente a mim, valente cagarola que foge (fugia!!) do mais raquítico aranhiço pateta (por favor não leiam aqui "pátéta"; leiam antes "pâtêta" que as aranhas têm patas e não pernas, logo perneta nunca podia um aranhiço, raquítico ou não, ser). Sem margem para hesitações abri a porta da dispensa. Todos os segundos eram cruciais para o sucesso da operação "morte à aranha tenebrosamente assustadora". Peguei no spray mata-moscas (mas que é que querem? Ainda não fizeram um mata-aranhas!...) e corri para o alpendre.
Respirei fundo. Sem dó nem piedade e muito decidida posicionei-me de frente para ela e sem um adeus sequer, sem misericórdia nenhuma carreguei no spray e fiz sair uma dose, pensava eu letal, de veneno.

Mas querem saber o que aconteceu? Pois a venenosa iniciou a fuga não demonstrando o mínimo sinal de ter sido afectada. Missão abortada? Não!! A saga estava apenas a começar, a corrida contra o tempo, a batalha entre a minha coragem e a veloz fuga da monstra. Eis que ela põe aquelas oito patas a mexer e ala que se faz tarde! desata a correr teia abaixo. Nisto eu volto à carga e despejo-lhe mais spray em cima, desta vez uma quantidade maior. Como resposta a tipa desenovela um fio e começa uma fuga descendente em direcção aos malmequeres do canteiro. Nessa altura percebi que tinha que ser mais rápida que ela se não queria perder a guerra para sempre.
Agarrei a lata com força com as duas mãos e despejei sem interrupção o vapor venenoso até ela dar sinais de estar combalida. Nessa altura não interrompi, claro que não, continuei até ela tombar. E não satisfeita com ela ali, pendurada pelo fio de patas recolhidas, despejei ainda mais. E pelo sim pelo não abanei o arbusto, nunca se sabe se ela estaria a fingir-se de morta e ia esperar que eu me voltasse de costas para me atacar com menos misericórdia do que eu a ataquei a ela.

Por fim estava tudo terminado. Ela jazia ali à espera das 17horas, hora em que viria o meu salvador de aranhas buscá-la e mandá-la para bem longe - para um sítio qualquer onde os meus olhos não chegassem.

Ainda hoje recordo essa manhã com nojo.

sábado, 18 de outubro de 2008

A avó espatifou outra vez a canela.

A outra espatifadela, a que fez há mais de um mês, está lá ainda. Sim, aquela que fez quando tropeçou nas escadas da entrada, bateu com a canela no degrau e agarrou-se à roseira - Ó D. Natália, não tinha sítio melhor para se agarrar? Ai ai ai... - mas já não adianta, nesta idade não aprende, só desaprende - sim, essa, ainda lá está.

A crosta, que já tem mais de 4 semanas, ainda não caiu, está por um fio, digo eu que não sou enfermeira nem médica mas que podia ser não fosse dar-se o caso de não poder ver sangue - e muito bem vou eu que me aguento sem vomitar - e por um fio ficará enquanto quiser que eu não vou arrancar nada, arrancaria se fosse minha mas é dela e a pele dela tem quase 88 anos - filha, já tenho cento e quantos, pergunta ela, tens 87 fazes 88 em Dezembro - mas ela já não sabe que é Outubro, as estações são agora todas iguais - a minha mãezinha é que morreu com cento e quantos tu é que sabes, ah 104 , pois foi , e tanto que ela sofreu na vida.

E a conversa é sempre a mesma e resume-se sempre ao mesmo. A mãe dela que morreu com 104 anos e que toda a vida esteve lá para tratar dela e não está agora, agora que ela tanto precisa da mãe porque está velhinha e a mãe é que devia lá estar para tomar conta dela como esteve toda a vida e não está agora, a mãe que sempre tanto sofreu e sempre a protegeu e agora não protege porque morreu, morreu há 10 anos mas ela já não sabe quanto tempo são 10 anos, podiam ser 10 minutos - a dor, essa, é a mesma.

E a crosta de há mais de um mês lá está. E ainda não caiu e está lá outra. Não, não outra crosta, outra ferida. Mais ou menos 10 cm acima.

Foi ontem de manhã. Quando lá cheguei estava ela ainda de robe. De robe, Não tens frio? Mas ela estava meio atordoada, percebi que estava a comer - a boca cheirava a migas de café, as migas que ela faz com o pão que deixa endurecer com medo que acabe, com receio que nos esqueçamos dela e não lhe levemos pão fresco - come o pão, nós trazemos mais amanhã - mas todos os dias é a mesma coisa, já não vale a pena, nesta altura ela já não aprende, só desaprende e nós temos que ir aos poucos desaprendendo com ela. Não filha, quer dizer, olha... e vi a perna.

Custa sempre olhar e ver a perna dela espatifada. Não sabia se havia de começar por desinfectar, por pôr gelo, pelo quê. Com sangue frio tirei o penso da crosta mais antiga, precisava de ver se estava aberta outra vez. O receio - não sei se da possível imagem da ferida aberta ou se das consequências da ferida ter aberto - remoeu-me o estômago. Não. A crosta lá estava, resistente e forte e bem agarrada. Pus tintura. Pus tintura como te vejo a fazer na outra, disse-me ela com orgulho. Fizeste bem, é assim mesmo, tentava eu disfarçar o estômago ruim.

O procedimento foi o que se repete há um mês. Desinfectar, pôr um cicratizante, cobrir.

Agora vais ficar com gelo na perna, este inchaço tem que desaparecer.

Deixei-a a acabar o pequeno almoço. Uma manta a cobrir os ombros, uma perna esticada e gelo, um olhar meiguinho e um sorriso na cara - sempre e sempre e todos os dias um sorriso. Ela diz que a melhor hora do dia é a da manhã, em que me vê e lhe encho o dia e falo com ela e a faço rir.
No fim a perna dela lá está, espatifada, a perna que já tem 87 e faz 88 anos em Dezembro mas que não sabe que estamos em Outubro porque as estações parecem todas iguais, a pele que já tem 87 anos e faz 88 em Dezembro mas que não sabe que estamos em Outubro porque as estações parecem todas iguais, o corpo que está velhinho e já não cura, só descura, a cabeça que está velhinha e já não aprende, só desaprende.

Porque a esta altura as estações, essas, são todas iguais.

sábado, 11 de outubro de 2008

Resumo da semana I

Tenho andado a magicar sobre o que escrever, mais por excesso de temas que por falta deles e ainda não me decidi.

Tinha pensado escrever sobre o fecho do meu Blog que era para não ter nome mas teve de ter, ou sobre o tão falado tema da semana que é o descalabro da economia mundial e de como as pessoas entram em pânico (ainda ontem, no messenger, tive uma pessoa em quase histerismo a dizer-me para levantar dinheiro do BPN porque sabia de fonte segura que ia fechar. Não digo que não seja verdade, mas calma...!) - é caso para preocupações mas vamos lá a aguardar, sim? - e até tinha pensado escrever sobre uma coisa que ontem tinha estado a falar com a minha amiga C. (uma delas, porque quando me pus a pensar nas minhas amigas, as três grandes que tenho, verifiquei que os nomes de todas elas começam por "C".), aquela que geograficamente está menos acessível, e que comentava comigo que seríamos eternamente a geração à rasca.

Bem, sobre o meu blog não tenho afinal muito para dizer. Deixou de me dar prazer.
Não, não foi escrever nele que deixou de me dar prazer... os que me liam atentamente e com o que eu chamo "olhos de ler" conhecem-me o suficiente (de certeza, e se não sabem isso foi porque nunca leram com os tais olhos de ler) para saber que eu não consigo ficar sem escrever. Por muito parvas que as coisas sejam, são as minhas coisas parvas. No fundo o que me deixou de dar prazer foi escrever neste bairro que cada vez tinha uma vizinhança mais invasiva, ao género de num dia não estamos em casa e levam um pezinho de salsa emprestado deixando um bilhete sem agradecimento, nós calarmos porque mais pé menos pé não há crise e quando reparamos foi-se o vaso e nós sem coragem de abrir a boca (Thunder, isto não te faz lembrar dois vasinhos que demos a uns certos jardineiros, pois não??).
A bem dizer isso foi uma das partes que contribuiu para o todo. Esta vizinhança tem o hábito de fazer algo que tenho as minhas reservas que é justificar-se por tudo e por nada. Eu não sou assim. Não gosto de me justificar nem gosto de ler / ouvir justificações. Se as pessoas são as certas não precisam delas para nada. Para as dar às erradas mais vale ficar calado - se são erradas não saberão o que fazer com elas. Por isso um dos outros factores (estes dois directamente ligados à blogosfera) foi pôr um espelho no ditado que diz "nas costas dos outros vemos as nossas" e começar a ver as dos outros nas minhas.

E pronto, blog arrumado. Sim, arrumadinho num canto diferente, ou acham que ia deitar fora todos os meus quase 5000 posts, alguns deles tão pessoais que só eu sei ler o que lá está escrito e alguns tão profundos que nem eu me lembro de onde vieram?

Depois há o tema da crise financeira. Nos EUA a bolsa não estava tão em baixo desde 1933. Em Portugal se não estou em erro foi há 30 anos. E pelo resto do mundo não sei nem me interessa. Não sei porque não percebo mesmo nada de economia - a não ser a doméstica, onde sou mesmo muito boa (sem falsas modéstias) e consigo gerir os poucos recursos que esta empresa que são os Thunder's tem e por vezes ainda conseguimos lucro, mesmo que baixo - e não me interessa porque tudo tem uma sequência cíclica e agora está em baixa amanhã vai estar em alta e a vida continua, não pára só porque as bolsas estão em queda - não pára para alguns porque decerto muitos já se mandaram da janela abaixo em Wall Street - e a minha vida pouco se rege pela bolsa que pobre que se preze felizmente não tem muito a perder - do mesmo modo que muito nunca há-de ganhar.

E no seguimento deste tema encaixa-se a conversa com a C. A famosa geração à rasca. À rasca desde a concepção na época tumultuosa e indefinida do pós 25 de Abril de 1975, à rasca por ter sido cobaia de uma série de políticas experimentais no campo da educação até se descobrir que o modelo está em não educar mas impingir conhecimento, à rasca com os desempregos - desemprego é na nossa geração uma profissão extenuante - à rasca porque estando na transição entre as épocas pré e técnológica poucos acreditam que saibamos fazer o que quer que seja, à rasca porque basta dizer que estamos na casa dos 30 para sermos catalogados como uma porcaria de gente que nasceu na geração errada. Pior que tudo seremos ainda a geração à rasca na 3ª idade porque vamos apanhar o completo colapso do sistema de segurança social e tendo essa visão 40 anos antes sabemos que desempregos + baixos salários são incompatíveis com poupanças para sobreviver na reforma.

Assim, o que nos resta?

Resta aguardar que se confirme o fim do mundo em 23 de Dezembro de 2012 conforme previsto pelo calendário Maia.
Até lá pondero viver estes últimos 4 anos da minha vida como nómada e arranjar sustento em feiras a fazer terérés.

Até tenho um slogan: "Prepara-te para o fim do mundo. Aproveita a promoção téréré. Na compra de 10 oferta do 11º".




sábado, 27 de setembro de 2008

Imaginário XXXII

Era uma vez, numa época qualquer e sem ter que ter obrigatoriamente príncipes, princesas, cavaleiros, bruxas, poções mágicas, nevoeiros, fadas e tantas outras coisas que embelezam as histórias de infância, um menino.

Este menino era daqueles meninos muito tímidos, muito virados para si, muito metido no seu mundinho, muito entretido com as suas coisas e raramente reparava no que estava à volta dele.

Bem, não seria bem assim.

O menino era muito curioso, muito muito curioso. Ele seguia os carreiros das formigas para ver o que elas faziam, ele contava o tempo que demoravam e chegou até a comer uma para ver a que é que sabia.

Ele olhava o sol pela janela e antes de aprender os movimentos de translação e rotação já sabia de intuição que em cada momento o sol ocupava um lugar diferente. Mas não sabia os nomes. Sabia as coisas.

Então ele sabia muitas coisas que os outros meninos nunca tinham pensado porque estavam sempre a brincar àquelas coisas parvas que todos os meninos brincavam e não serviam para nada. Mas não sabia os nomes das coisas e essas sim, os outros meninos sabiam bem - não as compreendiam nem sabiam como funcionavam mas sabiam todos os nomes de todas as coisas.

Este menino foi crescendo sem nunca ter sentido a falta das brincadeiras. Sentia falta do tempo. Quanto mais olhava para tudo e tentava compreender tudo mais intuitivamente sabia que nunca teria tempo para saber o que estava a seguir.

Um dia uma menina foi ter com ele.

- Olá menino.
- Olá menina.
- Como te chamas?
- Chamo-me o que me quiseres chamar.
- Não tens nome?
- Que importa o meu nome? Eu sou eu independentemente do que me chamares.

O menino pareceu muito complicado à menina, mas também ela sentia algo semelhante, apesar de não ser contra os nomes, ela achava que as coisas deviam ter nomes, só para todos sabermos do que se falava.

- Se virmos desse modo sim, menina, mas até agora nunca ninguém falou comigo das mesmas coisas.
- Queres brincar comigo?
- Brincar? Eu não gosto de brincar.
- Não gostas? Gostas de fazer o quê?
- Gosto de contar estrelas à noite e ver que a cada dia parecem no mesmo sítio mas ao fim de dias as posições são diferentes, por exemplo.
- Essa é uma das minhas brincadeiras favoritas!
- E gostas de apanhar gafanhotos e ver como são as suas patas?
- E carochinhas da areia!!

E o menino e a menina foram brincar.

Ela ensinou-lhe os nomes e ele ensinou-lhe a ter calma e a esperar porque as coisas maiores da vida não se viam ao primeiro olhar ou demoravam tempo a acontecer.

E cresceram juntos. E aprenderam tantas coisas juntos que se esqueceram do resto do mundo.

Quando repararam viviam no mundo deles onde mais ninguém tinha lugar e que mais ninguém compreendia. Mas era o mundo deles. Onde mais ninguém cabia.



Sim, viveram felizes para sempre.


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