sábado, 22 de novembro de 2008

(A importância de) Sentir na pele

Lembrei-me há pouco que quando era miúda (e não serei eternamente uma miúda? ainda que uma miúda a encarquilhar, a descair e a esbranquiçar?) me perguntava muitas vezes o que veria o meu pai, que usava óculos permanentemente e sempre que lhe pegávamos nos óculos ele dizia rispidamente "dá-me cá isso que eu não vejo nada sem eles" como se algo de muito mau lhe pudesse acontecer, um tom de voz que era um misto de receio e de ordem.

O meu pai era o único adulto que não era velho que eu conhecia que usava óculos sempre e a toda a hora. Nem os adultos velhos os usavam 24/7 e nem os adultos velhos ficavam tão irritados se pegássemos nas "oculetas" deles.

O meu pai era o único que ficava todo abespinhado.

Um dia perguntei-lhe se ele ficava cego se não os tivesse. Na minha ideia pôr os óculos seria como acender uma luz e tirá-los seria como apagá-la. E por isso nunca ele poderia ficar sem eles, senão passava a ver tudo muito escuro.
Ele respondeu que não ficava cego mas que não via nada. E eu não percebi nada do que ele me disse. Mas ele era crescido e eu não e devia ser uma daquelas coisas que só os crescidos é que sabem.

Um dia, tinha eu 13 anos, comecei a usar óculos. Coisa pouca, mas precisava. E lá andava eu toda contente com os meus óculos novos. Ao início tudo parecia igual com a excepção de ter uns vidros à frente dos olhos.

Hoje, 20 anos depois, ao olhar para o relógio digital do quarto lembrei-me da pergunta que fiz ao meu pai teria eu os meus 4 ou 5 anos. Ia jurar que até ouvi a minha voz.

E lembrei-me de ele ter respondido que não ficava cego mas que não via nada.
Porque eu não sou cega e macacos me mordam se eu não via nada a não ser um esborratado colorido disforme.

6 sakês:

Maria disse...

Ás vezes dizemos coisas, que depois nos arrependemos.. e se tornam tão mais lógicas..

bjnho.

Júlio disse...

Demoramos a "ver" as coisas por nós próprios, só isso. :)

Ovinho Estrelado disse...

É a importância do que, afinal, era mesmo importante.

Eu tenho o síndrome do teu pai. Se me pegam nos óculos entro em pânico. Mesmo estando com as lentes de contacto... Que nem preciso dos óculos... Mas vê-los sem ser "ali" provoca-me enérgicos ataques de gritos.

Beijoko, Vandinha.

Thunderlady disse...

Maria, na altura foi mesmo inocência de criança :)

Júlio ahah, pois é, pois é, "ver"... tomara eu não ter estes genes ceguetas!

Ovinho por acaso não me aflige isso, só me aflige quando crianças querem pegar neles, mas são tão raras as ocasiões que nem faz mossa.

***

Me Hate disse...

Ouvir e escutar são coisas diferentes.

Ver e olhar também...

Vekiki disse...

Sabes, eu sempre usei óculos, desde miúda, porque o meu olho esquerdo insiste em que trabalhar não é com ele e, por isso, o direito não pde ser penalizado! Mas os óculos sempre foram para ler, escrever e ver televisão/computador. De há 4 anos para cá, por indicação da oftalmologista, uso óculos escuros graduados. E agora, sem óculos, cada vez tenho mais dificuldade em ver como deve ser.
:-(


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