quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Imaginário XIV

Lembro-me de ver aquela rapariga todos os dias. Bem, ou pelo menos quase todos. Já nem sei há quanto tempo a vejo. É difícil não reparar nela e atenção, não interpretem isto de modo leviano. É difícil não reparar nela porque ela passa totalmente despercebida.

Creio que é daquelas que se tentam mimetizar no meio da multidão. Quer dizer, é só uma ideia, não sei. Que mania que temos de olhar para as pessoas, especialmente aquelas que nos habituamos a ver sem nunca lhes tocar, sem nunca ouvirmos a sua voz, nem nunca receber um olhar directo nos olhos... bem, neste último caso nem é bem verdade porque às vezes os nossos olhares cruzam-se de vez em quando e devo dizer que o olhar dela me incomoda. Não é que transpareça maldade ou que demonstre ficar chateada ou importunada. Mas é um olhar tão profundo, penetrante e insistente, como se desafiasse, que tenho mesmo que desviar os olhos dos dela. Chega a dar-me a sensação de que para ela estes olhares nos olhos são um desafio e quem acaba por sentir o incómodo como se da invasão da alma se tratasse sou eu.

Seja como for, estava eu a dizer que a impressão que me dá é que ela se quer fazer confundir com o meio, como se desejasse ser camaleão... até vou mais longe. Quer-me mesmo parecer que se ela pudesse seria mais que camaleão... como explicar? Que se ela pudesse estaria no meio da multidão a observar toda a gente, perfeitamente visível mas sem deixar que ninguém a visse... como se fosse possível...

O que me chama a atenção nela é o facto como ela até parece fazer para repudiar os olhares dela. Acredito que não se apercebe de como acaba por ser alvo de tantos olhares. Olho para todos à minha volta e reparo que todos a olham também e enquanto penso no que ela estará a pensar penso também no que os outros estão a pensar sobre ela, se será o mesmo que eu. Penso ainda quem é que a vê há mais tempo que eu e a analisa há mais tempo e julga compreendê-la há mais tempo e quem é que a vê há menos tempo e nesse “menos tempo” já sabe mais sobre ela que eu, e desses eu sinto ciúme.

Que coisa parva - digo para mim logo a seguir - Que coisa parva sentir ciúme de pessoas que não conheço. Devo estar a ficar lélé - é o que me vou repetindo. E no entanto queria ser só eu a compreender o que ela pensa, sente, quer, sonha, deseja...

9 sakês:

pensamentosametro disse...

É, quando deixamos de olhar para passar a ver é possível que estas situações aconteçam.

Bjos

Tita

Thunderlady disse...

Estava a pensar dar continuação a isto. Não "acabei" porque já estava a ficar longo. O que achas?

Aisling disse...

Acho que podes continuar... Laços invisíveis?

pensamentosametro disse...

Continua pois nós cá estamos para ler.

B.

Tita

ThunderDrum disse...

Agora depois de uma leitura mais cuidada, já gostei mais do imaginário!

hibrys disse...

Sim... continua:) Esta muito bom!! acho k até visualizei a rapariga!!! estás mto pró nestas coisas:)

Catarina disse...

Continua, continua!

Carpe Diem disse...

Acho que deves mesmo dar continuação ao texto... realmente é impressionante a quantidade de pessoas com quem nos cruzamos na rua e, o mais interessante, é não sabermos se alguma dessas pessoas irá ser, ou n, importante nas nossas vidas...

A Vida, no fundo, é feita de acasos que resultam de escolhas...fico a espera da continuação :)

Cai de Costas disse...

Gosto de "Lelé"


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