domingo, 2 de março de 2008

Em Fogo 14 - A ti...


Foste tu que me ajudaste a crescer, lembro-me tão bem!! Ainda me recordo daquele tempo em que chegava na tua casa e tu estavas sentado à mesa, com um cigarro nos dedos e olhar profundo de quem já tinha vivido muito.
Graças a ti pude aprender a guiar uma bicicleta, primeiro com rodinhas e depois sem nada, com a tua paciência iamos todos os dias para o jardim, perto da tua casa, onde passava largas horas a tentar andar e tu te divertias a jogar às cartas com quem eu chamava "batoteiros".
Graças a ti aprendi que nunca devemos fugir do que queremos, aprendi que devemos lutar sempre por ser felizes, aprendi o que é ser forte mesmo quando sabemos que temos a vida contada...
Ensinaste-me a jogar à sueca como um profissional, foi por tua causa que hoje sei o valor dos naipes e das pintas do dominó... graças a ti passava horas na tua mesa da sala a jogar, a rir, a olhar nos teus olhos profundos, a ouvir-te contar e cantar as tuas aventuras passadas, e a ver-te fumar o teu cigarro que parecia nunca acabar...
Ainda me lembro quando fazias a barba, com uma lâmina das antigas e colocavas alcool puro que te deixava a pele sedosa, como eu nunca consegui deixar a minha... lembro-me daquelas noites de Ano Novo e Natal com as tuas cantigas feitas de Vida, feitas de sonhos, feitas de peripécias que a escandalizavam porque eram reais. Senti-me sempre muito perto de ti em todos os sentidos, em termos de personalidade, de fome de viver, de alegria!!
Adorei participar na comemoração dos teus 50 anos de casado, coisa que hoje em dia pouca gente sabe o que é, anos feitos de luta, de compreensão, de ajuda, de amor... mas custou-me tanto regressar a casa e ver-te sem poder andar, com os teus passos incertos, apoiado pelo meu pai e pelo meu tio... ver a tua degradação dia após dia por causa dos teus SG Gigante ou Ventil... ir ter contigo nos meus anos com lagrimas nos olhos, porque estavas debilitado mas, mesmo assim, olhaste para mim com um sorriso e nunca choraste.
Queria poder dizer-te de novo tudo aquilo que me deste, tudo aquilo que me ensinaste... queria poder novamente beijar o teu rosto suave após a barba, brincar contigo quando o Benfica perdia ou quando podia ganhar-te às cartas ou ao dominó... queria poder esperar que regressasses dos teus passeios com passas de figo doces que me enchiam de prazer.
A ironia disto tudo foi que, apenas descobriste que tinhas um cancro, quando paraste de fumar e o fumo nos teus pulmões baixou... mesmo nesse momento não viraste a cara à luta e procuraste viver os teus últimos dias rodeado de quem mais te ama ainda que sob o efeito da morfina que te fazia viajar por tempos passados ou por locais onde nunca estiveste.
Para ti escrevo e que possas ler onde estiveres, as pessoas só morrem quando nos esquecemos delas e tu estás sempre no meu coração: meu avô Modesto, meu amigo, meu companheiro de brincadeira!!
Carpe Diem.
PS: Eu sei que o Domingo não é o meu dia, ultimamente tenho andado com problemas no meu teclado e, por isso, não pude publicar em 2 semanas seguidas... queria apenas deixar aqui este testemunho como se inserido na "Ronda das Tascas". Para a semana estarei realmente de volta ao meu dia, obrigado.

4 sakês:

Mim disse...

Quando comecei a ler lembrei-me do meu avô, histórias um pouco semelhantes, também ele me ensinou muito do que sei hoje apesar de ter morrido quando eu tinha 12 anos. Foi ele que com a sua paciência me ensinou a andar de bicicleta e apesar de não ter falado com ele sobre problemas "dos crescidos" sei que ia ser com ele que eu iria ter hoje, se assim fosse preciso, para me orientar.

É difícil perder alguém que se ama assim, foi com a morte dele que - e apesar de ser tão nova - me mentalizei que ele só iria morrer quando eu quisesse.

Lamento apenas que ele só vá permanecer vivo enquanto houver quem o recorde como eu recordo e que, efectivamente, um dia morra mesmo, pois eu, para já, não tenho a quem passar a memória dele e isso doi.

Beijos

Gione disse...

Eu nunca tive os meus avós perto de mim; aliás nós, o meu pequeno núcleo de 4 pessoas, vivíamos longe de toda a família, não criei grandes laços de família :(

Carpe Diem disse...

Mim: É essa mesmo a ideia, nunca esquecermos o q nos ensinaram e, apesar do meu avô ter morrido há alguns anos, apeteceu-me hj deixar-lhe aqui uma homenagem pq lhe devo parte do homem que sou.

Gione: Podes não ter criado laços com a tua familia mas n desesperes, crias os teus próprios laços com quem te quer bem, basta que haja sinceridade.

Beijo às 2
Nuno.

Aisling disse...

Tal como a Gi, n�o tenho grandes la�os com os meus av�s. Os paternos porque faleceram ainda era beb� e com os maternos, al�m da dist�ncia, por motivos menos felizes.
No entanto, apesar de sanguineamente n�o o serem, tenho duas pessoas que considero como meus verdadeiros av�s... E a quem tamb�m devo parte do que sou... ;)
Beijinhos


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