sábado, 22 de março de 2008

Imaginário XXV

Páscoa. Sábado de Páscoa. Levanta-se à mesma hora como se fosse dia de trabalho. Segue os mesmos gestos mecânicos do resto do ano quase maldizendo ser sábado entre feriados e estar em casa quase como uma obrigação.

Liga a televisão da cozinha para ver o notíciário. Abre o frigorífico, tira o sumo de laranja e dá um gole profundo directamente do pacote. É neste momento que ela entra na cozinha e ainda antes dos bons dias lhe diz que é um nojo fazer aquilo. Que vai baixar a televisão. Que as notícias só dão desgraças e é sábado de Páscoa e ainda são 6h da manhã, anda para a cama, os miúdos ainda dormem.

Sim, os "miúdos" ainda dormem, ser ou não ser sábado de Páscoa é igual, estão de férias e todas as noites vão para a borga com o dinheiro que eu trago para casa, a única coisa que peço em troca de sustentar estes vampiros é que me deixem ter das poucas manhãs por ano que posso ter para mim sossegado, beber o meu gole do pacote como faço todos os dias e ela não sabe, ver as minhas notícias.

- Vou ao escritório.

Dou-lhe um beijinho nas testa, sigo para a casa de banho, tomo o meu duche e faço a barba. Visto o fato, aperto o nó da gravata e saio.

É tão diferente conduzir nestes dias. Devia ser sempre assim. O telemóvel não toca. Estão todos nas suas casas com as suas famílias.Também eu deveria estar. Mas aquela não pode ser a minha família. O que foi que perdi?

Faço contas de cabeça para trás, quero saber onde foi que ao longo daqueles mais de 20 anos deixei de ter vontade própria e passei a ser um andróide motivado pelo trabalho e dinheiro. Subi na vida. Sou respeitado. Tenho o que chamam carreira. Tenho o que chamam família. Vamos a lugares finos onde se entra por convite, sentamo-nos lado-a-lado com a nata da sociedade.

Quantos sapos engoli eu para aqui chegar? Não sei. Nem sei quando foi que os comecei a engolir. A minha "família" nunca sequer pensou como foi que podem ter tudo isto, à custa de quê. À custa de quem. De mim, que vou aqui a conduzir, sábado de Páscoa, em direcção ao escritório para fazer nem sei o quê, apenas fugir, tal como Cristo não pôde fazer enquanto carregava a sua cruz.

Dou por mim a comparar a minha vida de lorde à cruz que Cristo carregou até ao Calvário. Um para bem de 5 pessoas, outro a bem da humanidade. Esbofeteio-me. Como me posso comparar a Cristo? Esbofeteio-me horrorizado com o meu sacrilégio.

Páro o carro ao ver a porta de uma igreja aberta. Entro. Lá dentro o que suponho ser o sacristão dispõe a mesa do altar. Dirijo-me a ele, procuro padre. Está a preparar a missa, diz ele, posso chamá-lo se precisar. Sim - agradeço.

Há anos que não me confessava. Há anos que não "pensava religioso". Saí de lá leve. A solução, por muito que eu não gostasse de a pensar ou materializar sempre esteve ali, a partir da altura em que olhei para a minha família e não reconhecia ninguém e pensava em que ponto foi que a nossa estrada deixou de ser a mesma para se dividir em duas quaisquer tangentes que só na altura da mesada se cruzavam.

Chegou ao escritório. Ligou o computador, abriu todas as suas pastas à procura de si e da sua intimidade. Não havia uma única fotografia de férias com as família. Não havia um único e-mail pessoal. Olhava abismado para o ecrã topo de gama, sentado na sua cadeira ergonómica em pele genuína e com um ligeiro impulso girou-a na direcção da janela. Do seu gabinete via mais de metada da parte ocidental da cidade, quase todos os dias tinha acesso a um pôr-do-sol perfeito e todos os dias o deixava escapar porque "amanhã há mais".

Voltou-se de novo para a secretária e começou a redigir um e-mail.

"Hoje termino de carregar a minha cruz. Quero ressuscitar para a vida."

Assinou-o e enviou. Saiu do escritório. Para o bem ou para o mal a sua decisão estava tomada.

Chegou a casa pouco passava das 11h da manhã. Não sabia como lhe dizer, a sua decisão estava tomada. Não sabia como lhe dizer que queria ressuscitar de toda aquela letargia de anos, que toda a família iria ser afectada mas que esta não podia ser uma decisão conjunta, era algo que ele próprio necessitava para ele.

Esperava que num acto de redenção toda a famíla compreendesse e apoiasse. Saberia que seria uma "prova". Sem apoio e sem compreensão nunca lhes poderia chamar "família". Fosse qual fosse a consequência tinha a certeza que a sua decisão era a mais acertada e a única possível.

- Hoje demiti-me.

9 sakês:

ThunderDrum disse...

Gostei imenso!!!

5 Estrelas!!!

Revi muitos colegas neste sushi...felizmente não me revejo a mim!

Bjos

Gione disse...

Eu, pecadora me confesso!

Nostálgica disse...

Gostei... Irei voltar.
um bjnho.

Me Hate disse...

A mim já não me reves que já me fui!!!!!!! IUPIIIIIIIIIII...

pensamentosametro disse...

Gostei, muito! Do teu imaginário tão, tão real.

Bjos

Tita

Maria Bloch disse...

E, provavelmente, demitiu-se também da sua "suposta" família...
Muito bom, gostei muito!

Mim disse...

Thunder, lembrei-me das histórias que contas, de irmos sair ao sábado e vermos os "gajos" a polir os carros no elefante azul e dos cenários que criamos... :)

Gi, tu? Não acredito!!

Nostálgica, obrigada! Volta sempre e participa!

Me Hate, já te ressuscitaste, ein?

Tita, os meus imaginários acabam por sempre por ser a realidade de alguém :)
Beijoca

Maria, obrigada! Sim, apesar de não ter dado continuação acredito que a família tenha tido um treco e o tenha demitido também. Também acho que a mulher, caso seja possível, lhe tenha posto um processo em cima. Mas acredito também que ele se borrifou para isso e se sentiu livre pela primeira vez em muitos anos!

Carpe Diem disse...

Muito bom texto e um beijo imenso de um desaparecido que tb ressuscitou das cinzas :))))

Mim disse...

Obrigada Carpe, andava a etsranhar-te!!

Beijo grande


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