sábado, 2 de agosto de 2008

Imaginário XXXI

Era uma vez, num país muito distante, uma rainha.

A rainha não era muito popular, era muito difícil gerir um reino tão grande sozinha e muitas vezes tinha que tomar decisões difíceis e que sabia que iam desagradar aos seus súbditos mas tinha que as tomar.

Um dia, enquanto a rainha chorava secretamente no seu leito por tão tormentosa que era a sua vida, apareceu-lhe uma fada que lhe trazia uma oferenda. A fada oferecia-lhe um espelho mágico cuja magia só se manifestava e era vista pelos olho da rainha. Tudo o que a rainha precisava fazer para que o espelho espelhasse com magia era perguntar-lhe se os outros viam a sua beleza e o espelho reflectiria a imagem que a maioria das pessoas tinha dela.
Mas, disse a fada, se contares a alguém a magia deixa de funcionar.

A rainha posicionou-se em frente do espelho mágico, proferiu as palavras mágicas e teve o resultado mágico. Uma imagem feia, disforme, distorcida e monstruosa surgiu.

Como a rainha ficou devastada... como lhe custava ter que tomar certas medidas para endireitar o reino e principalmente para o manter direito. Será que eles não sabiam? Achariam eles que ser rainha e tomar decisões era fácil?
Eles apenas decidiam sobre as suas vidinhas e bastava-lhes ter conhecimento delas. Ela não. tinha que estar informada não só das vidas deles como de tudo o que se passava no seu reino como de tudo o que se passava no resto do mundo. Às vezes ficava cansada e nem tinha quem lhe desse o conforto de um abraço, porque uma rainha não mostra emoções.

Nessa noite adormeceu embalada pelo som do seu choro e acarinhada pela suavidade das suas lágrimas.

Quando acordou na manhã seguinte, ainda um pouco angustiada, resolveu que ia mudar algo. Queria que a vissem como ela era. Não que a vissem como uma monstra. Os seus súbditos precisavam sentir que nem sempre as medidas boas para eles eram as melhores para todos. Iria sacrificar um pouco o reino mas eles iriam perceber que ela era para eles como uma mãe: eles podiam não concordar com tudo mas para eles ela iria ser bela e insubstituível porque uma mãe toma sempre conta dos filhos o melhor que sabe e quer sempre o melhor para eles.
E se eles não o descobriam " a bem" iriam descobrir "a mal".

Assim, na primeira sessão aberta ao povo, ela não refutou nem argumentou com os conhecimentos que tinha em como o que eles queriam não era o melhor para eles. Não. Ao contrário - assentiu a tudo depois de lhes dar a escolher entre os resultados a curto prazo e a longo prazo. Cada súbdito assinava uma espécie de testemunho em como a pergunta tinha sido feita e ele tinha escolhido o que achava ser melhor para o reino.

E assim foi. Ao início, e para desgosto cada vez maior da rainha - que se ia vendo cada vez mais bela no espelho - o reino estava a tomar as medidas directamente suplicadas. E ela sabia pela sua experiência que mais tarde ou mais cedo o reino ia colapsar. Gostaria que fosse mais tarde e que todos tivessem oportunidade de ver que o modo dela era o melhor para todos, mesmo parecendo o pior.

Aos poucos os súbditos recomeçaram as suas lamúrias. A cada um a rainha sorriu complacentemente e disse que apenas acedia aos desejos de cada um. Que eles haviam criticado antes e optaram voluntariamente por estas medidas, que nada lhes tinha sido imposto.

A rainha via o seu reino degradar-se cada vez mais depressa ao mesmo tempo que no espelho sua imagem era cada vez mais bela mas cada vez mais distorcida também.

Então tomou outra medida. Chamou todos para junto de si e anunciou as principais diferenças entre o antes e o depois das medidas. E anunciou também que iria voltar ao regime anterior.

Nessa noite o espelho não reflectiu. E a angústia da rainha continuava. Queria que a vissem como ela era. Nem ser mais bela nem ser hedionda aos olhos dos outros. Apenas como era: uma mulher destinada por herança a governar um povo que queria prosperar e que fazia tudo para que isso acontecesse.

Passados alguns dias o espelho voltou a reflectir. O espectro ainda era disforme, aparecia menos belo mas ainda assim distorcido.

E com o passar do tempo e com o retorno à sua política o seu reino estava cada vez mais perto daquilo que era o seu desejo.

Ela continuava a analisar e a ouvir o povo mas conforme estava decidido ela tomaria as decisões e não eles.

Um dia olhou-se no espelho e o espelho reflectia a sua imagem nítida. Sem disformidades, sem belezas exageradas sem monstruosidades. Reflectia a mulher que estava diante dele.

Nessa noite, enquanto dormia um sono calmo como há muito não tinha a fada passou e levou o espelho mágico deixando um igual.

E durante todo o reinado da rainha ninguém contestava as suas decisões pois ela estava confiante de si e da imagem que o mundo tinha dela.

6 sakês:

Gi disse...

Quando precisar, contas-me histórias?
Contas?
Liiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinda!

Thunderlady disse...

Conto histórias a quem as quiser ouvir :)

Júlio disse...

Eu também gosto de ouvir. :)

Carpe Diem disse...

Simplesmente estupendo!! 0h Thunder e quando sai um livro infantil de contos?

Thunderlady disse...

Vocês são realmente os melhores leitores :)

Talvez eu não acredite em im o suficiente e precise de um espelho mágico para escrever um livero de contos.

Afinal já escrevo contos aqui :)

Obeigada a todos

Ovinho Estrelado disse...

Vanda, estás contratada.

Abracinho apertado.


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